THEATRO MUNICIPAL REFÉM DA LACRAÇÃO ESTÉTICA: SUSTENIDOS DESFIGURA ÓPERAS, AGRIDE A TRADIÇÃO E AFASTA O PÚBLICO

ENTRE A EXCELÊNCIA MUSICAL E A ESTÉTICA DA DESCARACTERIZAÇÃO: O ESGOTAMENTO DAS “RELEITURAS” DA SUSTENIDOS NO THEATRO MUNICIPAL


 A comissão de seleção da Fundação Theatro Municipal de São Paulo apontou o Instituto Baccarelli como vencedor do processo de escolha da nova Organização Social responsável pela gestão do Complexo do Theatro Municipal de São Paulo pelos próximos cinco anos. A entidade superou a Sustenidos Organização Social de Cultura em praticamente todos os eixos técnicos avaliados, consolidando uma mudança significativa no comando de um dos mais importantes equipamentos culturais da América Latina.

O parecer técnico, que ainda aguarda homologação formal da Fundação Theatro Municipal após o período de recursos administrativos, atribuiu ao Baccarelli a nota final de 75,5 pontos, contra 57,5 da Sustenidos. Embora ambas tenham alcançado pontuação máxima no eixo referente à experiência institucional e capacidade técnica, o desempenho da Sustenidos passou a apresentar fragilidades substanciais nas etapas seguintes da avaliação.

Segundo a comissão, o Instituto Baccarelli demonstrou maior consistência técnica, clareza estratégica e melhor aderência às políticas de formação e ampliação de público. Já a Sustenidos, apesar de possuir histórico consolidado na administração cultural paulista, apresentou problemas documentais, inconsistências artísticas e falhas consideradas graves na viabilidade financeira de sua proposta.

A avaliação tornou particularmente evidente a fragilidade documental da proposta da Sustenidos no Eixo II, relativo à qualificação técnica e gerencial. A organização recebeu nota zero em dois critérios fundamentais por não apresentar portfólios completos de dirigentes executivos ligados à gestão cultural, nem comprovação curricular adequada de artistas vinculados diretamente aos seus projetos anteriores. Para uma entidade que há anos administra equipamentos culturais de grande relevância, a ausência de documentação considerada básica chamou atenção da comissão avaliadora.

No Eixo III, dedicado à consistência artística e conceitual da programação futura do Theatro Municipal, as críticas tornaram-se ainda mais contundentes. A comissão identificou incoerências estruturais na proposta da Sustenidos. Entre elas, destacou-se a ideia de criação de uma camerata derivada da Orquestra Sinfônica Municipal para execução da obra Paixão segundo São Marcos, do compositor Osvaldo Golijov. Segundo o parecer, a formação proposta utilizaria apenas 42 músicos, deixando mais da metade da orquestra sem função operacional, o que foi interpretado como sinal de planejamento artístico inconsistente.

Outra contradição apontada refere-se ao modelo de Comitê Curatorial sugerido pela entidade. Embora a Sustenidos tenha defendido, em sua proposta, o modelo anteriormente utilizado pela própria instituição como bem-sucedido, propôs simultaneamente uma reformulação estrutural do mesmo colegiado com participação ampliada de artistas da casa, sem apresentar justificativas técnicas suficientemente claras para a alteração.

As críticas à Sustenidos também alcançaram a área de formação e democratização de público  aspecto cada vez mais central nas políticas culturais contemporâneas. A comissão avaliou que a proposta da entidade estava excessivamente concentrada em ações de programação e comercialização de espaços publicitários, sem apresentar um plano robusto de reposicionamento institucional, comunicação pública e inclusão social. O Instituto Baccarelli, por outro lado, recebeu elogios por estruturar estratégias integradas de marketing cultural, relacionamento institucional e ampliação de acesso.

Na área orçamentária, considerada decisiva no processo, a situação da Sustenidos tornou-se particularmente delicada. O parecer afirma que a organização apresentou uma previsão de repasse contratual superior em mais de 20% ao valor autorizado na Lei Orçamentária Anual (LOA), fato interpretado pela comissão como uma inconsistência grave de exequibilidade financeira. A proposta indicava um repasse de R$ 160 milhões, enquanto o edital previa aproximadamente R$ 132 milhões anuais.




As críticas surgem em um momento no qual a Sustenidos já vinha sendo alvo de debates no setor cultural paulista. A entidade administra atualmente importantes programas estaduais ligados à música, entre eles o Projeto Guri, frequentemente reconhecido por sua ampla capilaridade social, mas também objeto de questionamentos recorrentes de artistas, sindicatos e agentes culturais acerca da centralização administrativa, da precarização de vínculos profissionais e dos modelos de gestão adotados por Organizações Sociais na cultura paulista.

Nos últimos anos, parte do meio musical também passou a discutir de maneira mais intensa a crescente “OSização” da cultura no estado de São Paulo modelo no qual equipamentos públicos são administrados por entidades privadas qualificadas como Organizações Sociais. Críticos do sistema argumentam que ele amplia mecanismos de terceirização, flexibiliza relações trabalhistas e reduz transparência administrativa em determinadas áreas da gestão cultural, enquanto defensores afirmam que o modelo oferece maior agilidade operacional e eficiência administrativa.

Mesmo o Instituto Baccarelli, vencedor do certame, não passou incólume às observações da comissão. O parecer questionou a viabilidade de sua proposta de redução de quase 15% na folha salarial por meio da substituição parcial de contratos celetistas por vínculos no modelo Pessoa Jurídica (PJ). Embora o relatório não critique diretamente o formato de contratação, levanta dúvidas sobre a precisão dos cálculos utilizados como base para a economia projetada.

A escolha do Instituto Baccarelli poderá representar não apenas uma mudança administrativa, mas também uma inflexão simbólica na política cultural paulistana. Fundado originalmente com forte atuação social em comunidades periféricas, o Baccarelli construiu reputação internacional sobretudo através de projetos de formação musical e inclusão social. Sua eventual chegada ao comando do Theatro Municipal sugere uma tentativa de aproximação entre excelência artística e políticas públicas de democratização cultural  desafio histórico das grandes instituições líricas brasileiras.








  






Comentários

Anônimo disse…
O autor entitulado crítico tenta se vender como uma defensor da cultura, mas na prática soa como um ataque arrogante contra qualquer tentativa de renovação artística. O autor transforma gosto pessoal em verdade absoluta e trata inovação como se fosse uma doença contaminando o teatro. Isso não é defesa da arte é apego doentio a um passado idealizado.
Existe uma diferença enorme entre criticar decisões de gestão e agir como dono da cultura erudita. O artigo ultrapassa essa linha o tempo inteiro. Chamar propostas contemporâneas de “palhaçadas”, “loucura” ou “lacração” revela mais intolerância estética do que preocupação real com qualidade artística.
Anônimo disse…
Onde que teve agressão a cultura Sr. Crítico?
Anônimo disse…
O Theatro Municipal não pode virar um mausoléu congelado para agradar uma pequena população que acredita que ópera e música clássica devem permanecer intocáveis, inacessíveis e distantes do público moderno. Arte viva incomoda, provoca, muda linguagem e dialoga com seu tempo. Foi assim com Wagner, Stravinsky e até a Semana de 22 artistas que hoje os conservadores veneram, mas que em suas épocas também foram acusados de destruir a tradição.
O mais contraditório é reclamar de “democratização da cultura” como se ampliar acesso fosse algo negativo. Isso expõe uma visão profundamente excludente. Cultura pública não deve existir apenas para um grupo fechado de especialistas e saudosistas que acreditam ter monopólio sobre o “bom gosto”.
Além disso, o texto mistura críticas válidas sobre orçamento e planejamento com ataques ideológicos rasos. O uso insistente da palavra “lacração” enfraquece completamente a credibilidade da análise, porque transforma um debate complexo sobre gestão cultural em uma guerra política simplista e histérica.
Se há problemas administrativos, eles precisam ser debatidos com dados, propostas e seriedade. Mas transformar qualquer releitura artística ou tentativa de inclusão cultural em “destruição da arte” é um discurso preguiçoso, agressivo e intelectualmente limitado.
O Theatro Municipal não pertence a uma bolha nostálgica presa ao século passado. Ele pertence ao público, à cidade e às novas gerações também. E arte que se recusa a dialogar com o presente acaba morrendo sufocada pelo próprio elitismo.
Anônimo disse…
Como as verdades incomodam a Sustenidos ?
Sergio disse…
Infelizmente existem imbecis que se incomodam com aprimoramentos.
Jadson Mundim disse…
O que víamos na antiga gestão da Sustenidos era o esvaziamento gradual da essência cultural e artística que sempre deu identidade ao teatro e à ópera como expressões de excelência. Um espaço de prestígio histórico não pode se tornar palco de descaracterização estética, ideológica ou administrativa. Quando a gestão perde o compromisso com a valorização da arte, da tradição, da qualidade técnica e do respeito ao público, o resultado é um enfraquecimento da própria relevância cultural da instituição.

A ópera e o teatro sobrevivem pela força de sua herança artística, pela competência de seus profissionais e pela conexão genuína com a sociedade não por agendas passageiras que afastam o público e diluem a identidade de um dos mais importantes símbolos culturais do país.
Mario Sancigolo disse…
Destruição do público e afastamento arrevelia daqueles que amam a música clássica, a ópera. Herança que a Sustenidos deixa para a cidade de São Paulo.
Carlos Martins disse…
A “finada” Sustenidos conseguiu a proeza de transformar um espaço de excelência artística em um laboratório de experiências questionáveis, onde muitas vezes parecia que a tradição, a identidade cultural e o respeito ao público eram tratados como peças ultrapassadas de museu. No fim, ficou a sensação de que a gestão enterrava a grandiosidade do teatro aos poucos, sempre em nome de uma modernidade que raramente convencia quem realmente valorizava arte de verdade.
Lydia do Rio Penteado disse…
A Sustenidos aprontou o caixão da arte sagrada no Teatro Municipal de São Paulo. Só resta o velório e o sepultamento da ópera.
Carlo Rivolli disse…
O Guarany, Don Giovanni, Nabucco, Macbeth, todas estupradas assassinadas e sepultadas pela Sustenidos
Plínio Jovem Ribeiro disse…
Vc afirma, reafirma e confirma seu respeitável talento crítico, sempre embasado nos conhecimentos técnico/artístico e histórico. Seu texto é consistente, relatando e revelando posições e políticas dissociadas das melhores práticas de gestão pública.
Anônimo disse…
A fila de última hora se encarregava de preencher as centenas de poltronas vagas em todos os concertos e óperas. Uma vergonha. E ainda, antes diziam, que o teatro já estava lotado.
Instituto Baccarelli Benvindo ao Theatro Municipal de São Paulo !!!
Anônimo disse…
O autor é de um cinismo impar, impressionante. Diretor da OS ligado ao Mario Frias, 15% de funcionários "pejotizados", sucateando a equipe que atende a casa, tudo vale em nome do combate a "lacração ideológica", sem nem ao menos perceber o quão ideológico é seu posicionamento, recebe de braços abertos aqueles que querem destruir a cultura.