THEATRO MUNICIPAL REFÉM DA LACRAÇÃO ESTÉTICA: SUSTENIDOS DESFIGURA ÓPERAS, AGRIDE A TRADIÇÃO E AFASTA O PÚBLICO
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ENTRE A EXCELÊNCIA MUSICAL E A ESTÉTICA DA DESCARACTERIZAÇÃO: O ESGOTAMENTO DAS “RELEITURAS” DA SUSTENIDOS NO THEATRO MUNICIPAL
Escrito por Marco Antonio Seta
A comissão de seleção da Fundação Theatro Municipal de São Paulo apontou o Instituto Baccarelli como vencedor do processo de escolha da nova Organização Social responsável pela gestão do Complexo do Theatro Municipal de São Paulo pelos próximos cinco anos. A entidade superou a Sustenidos Organização Social de Cultura em praticamente todos os eixos técnicos avaliados, consolidando uma mudança significativa no comando de um dos mais importantes equipamentos culturais da América Latina.
O parecer técnico, que ainda aguarda homologação formal da Fundação Theatro Municipal após o período de recursos administrativos, atribuiu ao Baccarelli a nota final de 75,5 pontos, contra 57,5 da Sustenidos. Embora ambas tenham alcançado pontuação máxima no eixo referente à experiência institucional e capacidade técnica, o desempenho da Sustenidos passou a apresentar fragilidades substanciais nas etapas seguintes da avaliação.
Segundo a comissão, o Instituto Baccarelli demonstrou maior consistência técnica, clareza estratégica e melhor aderência às políticas de formação e ampliação de público. Já a Sustenidos, apesar de possuir histórico consolidado na administração cultural paulista, apresentou problemas documentais, inconsistências artísticas e falhas consideradas graves na viabilidade financeira de sua proposta.
A avaliação tornou particularmente evidente a fragilidade documental da proposta da Sustenidos no Eixo II, relativo à qualificação técnica e gerencial. A organização recebeu nota zero em dois critérios fundamentais por não apresentar portfólios completos de dirigentes executivos ligados à gestão cultural, nem comprovação curricular adequada de artistas vinculados diretamente aos seus projetos anteriores. Para uma entidade que há anos administra equipamentos culturais de grande relevância, a ausência de documentação considerada básica chamou atenção da comissão avaliadora.
No Eixo III, dedicado à consistência artística e conceitual da programação futura do Theatro Municipal, as críticas tornaram-se ainda mais contundentes. A comissão identificou incoerências estruturais na proposta da Sustenidos. Entre elas, destacou-se a ideia de criação de uma camerata derivada da Orquestra Sinfônica Municipal para execução da obra Paixão segundo São Marcos, do compositor Osvaldo Golijov. Segundo o parecer, a formação proposta utilizaria apenas 42 músicos, deixando mais da metade da orquestra sem função operacional, o que foi interpretado como sinal de planejamento artístico inconsistente.
Outra contradição apontada refere-se ao modelo de Comitê Curatorial sugerido pela entidade. Embora a Sustenidos tenha defendido, em sua proposta, o modelo anteriormente utilizado pela própria instituição como bem-sucedido, propôs simultaneamente uma reformulação estrutural do mesmo colegiado com participação ampliada de artistas da casa, sem apresentar justificativas técnicas suficientemente claras para a alteração.
As críticas à Sustenidos também alcançaram a área de formação e democratização de público aspecto cada vez mais central nas políticas culturais contemporâneas. A comissão avaliou que a proposta da entidade estava excessivamente concentrada em ações de programação e comercialização de espaços publicitários, sem apresentar um plano robusto de reposicionamento institucional, comunicação pública e inclusão social. O Instituto Baccarelli, por outro lado, recebeu elogios por estruturar estratégias integradas de marketing cultural, relacionamento institucional e ampliação de acesso.
Na área orçamentária, considerada decisiva no processo, a situação da Sustenidos tornou-se particularmente delicada. O parecer afirma que a organização apresentou uma previsão de repasse contratual superior em mais de 20% ao valor autorizado na Lei Orçamentária Anual (LOA), fato interpretado pela comissão como uma inconsistência grave de exequibilidade financeira. A proposta indicava um repasse de R$ 160 milhões, enquanto o edital previa aproximadamente R$ 132 milhões anuais.
As críticas surgem em um momento no qual a Sustenidos já vinha sendo alvo de debates no setor cultural paulista. A entidade administra atualmente importantes programas estaduais ligados à música, entre eles o Projeto Guri, frequentemente reconhecido por sua ampla capilaridade social, mas também objeto de questionamentos recorrentes de artistas, sindicatos e agentes culturais acerca da centralização administrativa, da precarização de vínculos profissionais e dos modelos de gestão adotados por Organizações Sociais na cultura paulista.
Nos últimos anos, parte do meio musical também passou a discutir de maneira mais intensa a crescente “OSização” da cultura no estado de São Paulo modelo no qual equipamentos públicos são administrados por entidades privadas qualificadas como Organizações Sociais. Críticos do sistema argumentam que ele amplia mecanismos de terceirização, flexibiliza relações trabalhistas e reduz transparência administrativa em determinadas áreas da gestão cultural, enquanto defensores afirmam que o modelo oferece maior agilidade operacional e eficiência administrativa.
Mesmo o Instituto Baccarelli, vencedor do certame, não passou incólume às observações da comissão. O parecer questionou a viabilidade de sua proposta de redução de quase 15% na folha salarial por meio da substituição parcial de contratos celetistas por vínculos no modelo Pessoa Jurídica (PJ). Embora o relatório não critique diretamente o formato de contratação, levanta dúvidas sobre a precisão dos cálculos utilizados como base para a economia projetada.
A escolha do Instituto Baccarelli poderá representar não apenas uma mudança administrativa, mas também uma inflexão simbólica na política cultural paulistana. Fundado originalmente com forte atuação social em comunidades periféricas, o Baccarelli construiu reputação internacional sobretudo através de projetos de formação musical e inclusão social. Sua eventual chegada ao comando do Theatro Municipal sugere uma tentativa de aproximação entre excelência artística e políticas públicas de democratização cultural desafio histórico das grandes instituições líricas brasileiras.
Enquanto o Instituto Baccarelli vem consolidando uma imagem institucional ligada à formação musical séria, à democratização do acesso à música de concerto e à construção efetiva de novas plateias através de estratégias articuladas de educação artística, inserção social e valorização do patrimônio musical, a Sustenidos Organização Social de Cultura parece ter mergulhado, nos últimos anos, em um projeto estético marcado por sucessivas deformações conceituais da linguagem operística e sinfônica, frequentemente travestidas de “modernização” ou “ressignificação contemporânea”.
Sob sua gestão, tornou-se recorrente a adoção de encenações que desfiguram completamente o espírito original das obras apresentadas, ignorando contextos históricos, destronando coerências dramatúrgicas e substituindo o refinamento estético por intervenções muitas vezes arbitrárias, panfletárias e visualmente desconexas. Em nome de uma pretensa atualização ideológica, produções passaram a violentar libretos, alterar temporalidades, descaracterizar figurinos históricos e destruir a lógica cênica concebida pelos compositores e dramaturgos originais.
A questão não reside na legítima liberdade criativa elemento vital da arte, mas no excesso de releituras que parecem existir menos para servir à obra e mais para atender agendas estéticas autocentradas, frequentemente desconectadas da natureza musical e dramática do repertório apresentado. O resultado, em muitos casos, é a diluição da experiência operística em montagens que flertam com a caricatura conceitual, esvaziando a densidade psicológica e a arquitetura simbólica das obras.
No âmbito da ópera, a insistência em transposições temporais artificiais e em intervenções cênicas de impacto superficial tem produzido um efeito de desgaste junto ao público tradicional do Theatro Municipal de São Paulo, instituição cuja história sempre esteve associada à excelência estética, ao rigor interpretativo e à preservação da grande tradição lírica internacional. Ao invés de diálogo equilibrado entre tradição e contemporaneidade, muitas produções recentes parecem optar deliberadamente pelo choque gratuito, pela desconstrução compulsiva e por uma espécie de militância estética permanente.
A consequência direta desse processo é o afastamento progressivo de parte significativa do público melômano, que frequentemente se vê obrigado a assistir a obras de Giuseppe Verdi, Richard Wagner, Carlos Gomes, R. Strauss ou Wolfgang Amadeus Mozart mutiladas por conceitos cênicos que parecem competir com a própria música ao invés de servi-la. Ilustrando a retroafirmação basta lembrar da infeliz montagem de Aida e Nabucco, de Giuseppe Verdi, do polêmico Guarani do imortal compositor campineiro, da desastrosa montagem de Don Giovanni, da catástrofe cênica de Macbeth (Verdi), e de Porgy and Bess, repleta de experimentações ideológicas repetitivas da época, com ênfase à diversidade e à pluralidade, nada além do mesmo. Ademais... a obsessão pelo tema de guerras é um fenômeno complexo, impulsionado tanto por fatores psicológicos individuais quanto por dinâmicas socioculturais e midiáticas. Esse interesse pode variar de um fascínio histórico/estratégico a uma ansiedade paralisante e esteve presente nos concertos sinfônicos e, até na ópera: A Missa de Requiem, de Britten 1962, como uma encomenda para a celebração da nova Catedral de Coventry, onde foi solenemente frizada a guerra, pelo maestro Roberto Minczuk; a ópera Friedenstag , de Richard Strauss; a canta cênica "Alexander Nevsky, de Serguei Prokofiev e a Missa de Leoanrd Bernstein, de 1971, encomendada por Jacqueline Kennedy para a inauguração do Kennedy Center, englobando ritos latinos com rock, jazz e teatro, abordando temas de fé e crise.
Em vez de aprofundar a dimensão humanista e universal dessas obras monumentais, certas montagens recentes deram a impressão de reduzir o palco do Municipal a um laboratório de experimentações ideológicas repetitivas, frequentemente incapazes de sustentar coerência estética ou profundidade dramatúrgica. A crítica mais severa que emerge desse modelo de gestão artística não é propriamente o desejo de atualização algo perfeitamente legítimo no teatro contemporâneo , mas a insistência em transformar repertórios clássicos em plataformas de intervenção simbólica quase sempre previsíveis, artificiais e desconectadas da essência das partituras.
Nesse contexto, a possível ascensão do Instituto Baccarelli ao comando do Complexo do Theatro Municipal desperta expectativa justamente por sinalizar uma alternativa menos pautada pela provocação estética sistemática e mais comprometida com excelência musical, formação cultural consistente e respeito à integridade histórica das obras. Afinal, inovação genuína não exige a destruição da tradição: exige inteligência artística suficiente para dialogar com ela sem reduzi-la a mero instrumento de agendas circunstanciais.
A comissão responsável pela seleção foi formada por Leonardo Camargo Oliveira dos Santos, diretor de formação da Fundação Theatro Municipal; Thiago de Almeida Tavares, integrante da diretoria artística da fundação; e Rita de Cássia Ribeiro dos Reis, membro suplente da comissão avaliadora.
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