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UMA DAS MAIS GRANDIOSAS E COMPLEXAS PARTITURAS DE VERDI VOLTA AO PALCO PAULISTANO EM NOVA PRODUÇÃO, A PARTIR DE 18 DE SETEMBRO
Depois de uma ausência de 22 anos, Don Carlo, uma das obras mais monumentais, dramáticas e musicalmente ambiciosas de Giuseppe Verdi, volta ao palco do Theatro Municipal de São Paulo. A nova produção será apresentada entre 18 e 26 de setembro de 2026, reunindo a Orquestra Sinfônica Municipal e o Coro Lírico Municipal, sob a direção musical de Roberto Minczuk, com encenação e iluminação de Caetano Vilela.
A última montagem da ópera no Municipal havia ocorrido entre 19 e 29 de agosto de 2004. O Centro de Documentação e Memória do próprio Theatro conserva o programa daquela produção, documento que confirma a importância histórica da montagem anterior.
UMA ÓPERA NASCIDA EM PARIS
UM DOS GRANDES DRAMAS DE VERDI
A genialidade de Don Carlo está justamente em não apresentar apenas uma sucessão de árias brilhantes. Verdi constrói uma obra na qual a orquestra, o coro e os personagens participam permanentemente da tensão dramática.
É também uma das partituras em que o compositor trabalha de maneira mais profunda a psicologia dos personagens.
Filipe II não é apenas o monarca absoluto: é um homem solitário, consumido pela suspeita e pelo fracasso afetivo. Seu célebre monólogo “Ella giammai m'amò” expõe, talvez como nenhum outro momento da ópera, a solidão de um soberano que possui poder sobre um império, mas não sobre o coração da mulher que ama.
Elisabetta vive o conflito entre o dever de rainha e o sentimento que precisa sufocar.
Don Carlo representa a juventude, a paixão e o desejo de liberdade.
Rodrigo, Marquês de Posa, é a voz do ideal político e da amizade, personagem que se tornou um dos mais fascinantes barítonos do repertório verdiano.
FILIPE II CONTRA O GRANDE INQUISIDOR
Entre todos os momentos da obra, poucos possuem a força política e teatral do encontro entre Filipe II e o Grande Inquisidor.
É uma cena extraordinária porque Verdi coloca frente a frente dois poderes absolutos: o poder temporal do rei e o poder espiritual da Igreja.
O Grande Inquisidor, velho, cego e implacável, não aparece como simples personagem secundário. Ele representa uma autoridade diante da qual o próprio soberano espanhol precisa medir suas palavras.
Essa oposição entre Estado e Igreja, tão característica do universo de Don Carlo, constitui uma das razões pelas quais a ópera permanece tão atual. O drama de Verdi ultrapassa o século XVI e transforma-se em uma reflexão sobre o poder, a submissão e a liberdade humana.
VERDI E A LONGA HISTÓRIA DE REVISÕES DE DON CARLO
Poucas óperas de Verdi possuem uma história textual tão complexa.
Depois da estreia parisiense de 1867, o compositor voltou várias vezes à obra. As exigências práticas dos teatros, a enorme duração da partitura e a necessidade de tornar a ópera mais manejável fizeram com que Verdi realizasse cortes e modificações substanciais.
Em 1882, Verdi retomou Don Carlos em Paris, trabalhando novamente com Camille du Locle. O objetivo era reduzir a enorme extensão da obra. O compositor eliminou o primeiro ato, ambientado na floresta de Fontainebleau, e também o grande balé obrigatório da tradição da Grand Opéra. O resultado foi uma versão em quatro atos, concluída em 1883.
Essa nova versão foi apresentada no Teatro alla Scala de Milão em 10 de janeiro de 1884, agora em italiano. A tradução foi realizada por Achille de Lauzières, com participação de Angelo Zanardini nos novos textos da revisão. É importante destacar um detalhe musicológico: as revisões de Verdi foram feitas sobre o texto francês; a chamada “versão italiana” é, rigorosamente, uma tradução italiana da versão revisada.
Na histórica estreia da versão milanesa, o papel-título foi interpretado por Francesco Tamagno, futuro criador do papel de Otello na ópera homônima de Verdi.
A VERSÃO DE 1886 — A CHAMADA “EDIÇÃO DE MODENA”
A história, entretanto, ainda não terminaria.
Em 29 de dezembro de 1886, em Modena, voltou a ser apresentado o primeiro ato de Fontainebleau, combinado com a revisão milanesa de 1884. Nascia assim a chamada “versão de Modena”, em cinco atos, porém sem o balé francês original. A reconstrução dessa versão foi realizada com a anuência de Verdi e corresponde, em linhas gerais, à combinação entre o primeiro ato original e a revisão realizada para Milão.
É justamente essa tradição da obra em cinco atos, tão importante para a compreensão integral da trajetória de Don Carlo, que torna especialmente significativa a escolha do Municipal para sua nova produção.
Em outras palavras, Don Carlo não possui uma única forma definitiva comparável à de muitas outras óperas do repertório. Há diferentes estados da partitura, entre eles a monumental versão francesa de 1867, a versão italiana em quatro atos de 1884 e a versão em cinco atos de 1886.
DON CARLO VOLTA AO MUNICIPAL
A produção que o público paulistano poderá acompanhar a partir de 18 de setembro será apresentada em italiano, em cinco atos, conforme informa oficialmente o Theatro Municipal. A duração anunciada é de 270 minutos, ou seja, aproximadamente 4 horas e 30 minutos, com intervalos. A classificação indicativa é 12 anos.
A montagem conta com a presença de importantes nomes do canto lírico nacional e internacional. Entre eles está o tenor brasileiro Atalla Ayan, no papel-título, a soprano norte-americana Ailyn Pérez, que fará sua estreia operística no Brasil, e o baixo Luiz-Ottavio Faria, no papel de Filipe II.
A direção musical estará a cargo de Roberto Minczuk, enquanto a regência do Coro Lírico Municipal será de Hernán Sánchez Arteaga, informação que consta do material oficial do Theatro.
Na criação cênica, Caetano Vilela assina encenação e iluminação; Duda Arruk, a cenografia; Fábio Namatame, os figurinos; Simone Momo, o visagismo; e Ronaldo Zero, a assistência de direção.
FICHA TÉCNICA E ARTÍSTICA
DON CARLO
Giuseppe Verdi
Ópera em cinco atos, em italiano
Libreto: Joseph Méry e Camille du Locle
Baseado na peça Don Carlos, Infant von Spanien, de Friedrich Schiller
Tradução italiana: Achille de Lauzières e Angelo Zanardini
DIREÇÃO MUSICAL
Roberto Minczuk — Regência da Orquestra Sinfônica Municipal
Hernán Sánchez Arteaga — Regência do Coro Lírico Municipal
EQUIPE DE CRIAÇÃO
Caetano Vilela — Encenação e iluminação
Duda Arruk — Cenografia
Fábio Namatame — Figurinos
Simone Momo — Visagismo
Ronaldo Zero — Assistente de direção
CORPOS ARTÍSTICOS
Orquestra Sinfônica Municipal
Coro Lírico Municipal
ELENCO — 18, 20, 23 E 26 DE SETEMBRO
- Don Carlo — Atalla Ayan
- Elisabetta di Valois — Ailyn Pérez
- Filippo II — Luiz-Ottavio Faria
- Princesa Eboli — Ana Lucia Benedetti
- Rodrigo, Marquês de Posa — Paulo Szot
- O Grande Inquisidor — Soloman Howard
- Um Frade — Savio Sperandio
- Tebaldo — Isabella Luchi
- Uma Voz do Céu — Raquel Paulin
ELENCO — 19, 22 E 25 DE SETEMBRO
- Don Carlo — Matheus Pompeu
- Elisabetta di Valois — Ludmilla Bauerfeldt
- Filippo II — Savio Sperandio
- Princesa Eboli — Juliana Taino
- Rodrigo, Marquês de Posa — Michel de Souza
- O Grande Inquisidor — Valeriano Lanchas
- Um Frade — Sérgio Righini
- Tebaldo — Nubia Eunice
- Uma Voz do Céu — Lívia Berrêdo
PARTICIPAÇÃO EM TODAS AS DATAS
- Conde de Lerma — Eduardo Goes
- Um Arauto — Carlos Eduardo Santos
- Condessa de Aremberg — Patrícia Vilela
Elenco de apoio: Alessandra Helena, Antônio Bénega, Cristiano Belarmino, Diego Machado, Eduardo Martins, Gabriel Dussatti, José Geraldo, Leila Bass, Nill de Pádua, Rodrigo Manzelli, Roni Máximo, Vini DaVinci, Wanderley Salgado e Washington Lins.
DATAS E HORÁRIOS
18 de setembro — sexta-feira — 19h
19 de setembro — sábado — 17h
20 de setembro — domingo — 17h
22 de setembro — terça-feira — 19h
23 de setembro — quarta-feira — 19h
25 de setembro — sexta-feira — 19h
26 de setembro — sábado — 17h
O site oficial atualmente informa ingressos entre R$ 47 e R$ 290, com classificação 12 anos e duração de 270 minutos.
UM RETORNO QUE ULTRAPASSA O SIMPLES CALENDÁRIO
Mais do que o retorno de um título ao repertório, a volta de Don Carlo ao Theatro Municipal de São Paulo representa a recuperação de uma das grandes obras do repertório operístico internacional. São 22 anos desde a última produção paulistana, um intervalo particularmente significativo para uma cidade com a tradição lírica de São Paulo.
Verdi, em Don Carlo, não escreveu apenas uma ópera histórica. Escreveu um vasto painel sobre amor e poder, religião e política, pai e filho, liberdade e opressão — um drama no qual os personagens lutam contra estruturas muito maiores do que eles próprios.
E talvez seja precisamente por isso que, quase 160 anos depois de sua estreia parisiense, Don Carlo continue sendo uma obra de extraordinária atualidade: porque o homem de Verdi pode mudar de época, de país e de uniforme, mas os conflitos que o destroem continuam reconhecíveis.
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