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Um Concerto Wagneriano de Tal Magnitude Não Pode Acontecer Apenas Uma Vez.
Escrito por Marco Antônio Seta
A Orquestra Experimental de Repertório apresentou neste domingo, 29 de março, às 11 horas, no Theatro Municipal de São Paulo, um concerto inteiramente dedicado às obras de Richard Wagner (1813–1883). O compositor alemão permanece como um dos grandes monumentos da música ocidental: sua obra monumental reúne os chamados dramas musicais, concebidos por ele próprio em todas as dimensões música e libreto resultando em uma criação artística gigantesca e sem paralelo entre os mestres da música universal.
O mestre de Festspielhaus de Bayreuth exerceu profunda influência sobre praticamente todos os compositores de sua época e ainda sobre uma ou duas gerações posteriores, embora curiosamente não tenha deixado um verdadeiro continuador. Como observou o compositor francês Claude Debussy: “Wagner foi um esplêndido pôr do sol que muitos tomaram por aurora.” De fato, quando as novas correntes musicais do século XX procuraram afirmar ideias inéditas, tiveram antes de confrontar a poderosa herança wagneriana.
Dotado de um gênio eminentemente teatral, Wagner dedicou-se quase exclusivamente à ópera. A gestação de suas obras foi lenta e laboriosa, tanto pela sua vida tempestuosa quanto pela complexidade do processo criativo. De espírito filosófico e imaginação poética singular, foi também pioneiro ao escrever os próprios libretos de suas óperas, prática que mais tarde, seria seguida por compositores como Peter Cornelius, Nikolai Rimsky-Korsakov, Arrigo Boito, Ruggero Leoncavallo, Richard Strauss, Gustave Charpentier, Hans Pfitzner, Sergei Prokofiev, Alban Berg, Ermanno Wolf-Ferrari e Gian Carlo Menotti.
Na concepção dramática wagneriana, a orquestra torna-se o verdadeiro narrador da ação, enquanto as vozes delineiam e projetam o drama através do libreto. Essa dimensão sinfônica da ópera encontrou plena realização neste concerto sob a condução segura e inspirada do maestro WAGNER POISTCHUK, regente titular da OER que fez especialização na Escola Superior Estatal de Música de Trossingen, na Alemanha, com Branimir Slokar.
A abertura do programa coube à cena orquestral do terceiro ato de Lohengrin, ópera estreada sob a direção de Franz Liszt no Teatro de Weimar, em 28 de agosto de 1850. A música festiva e radiante dessa introdução irrompeu na sala com brilho e solenidade, encontrando na regência de Polistchuk uma leitura vigorosa, precisa e musicalmente eloquente. O maestro revelou domínio absoluto do discurso wagneriano, conduzindo a jovem orquestra com clareza estrutural e energia rítmica, extraindo do conjunto sonoridades amplas e bem equilibradas.
Nesse aspecto, o concerto confirmou o papel essencial de Polistchuk não apenas como regente, mas como formador de músicos. Dotado de invulgar capacidade técnica e pedagógica, ele demonstra, à frente da Orquestra Experimental de Repertório, um compromisso profundo com a formação das novas gerações instrumentais que em breve integrarão as principais orquestras sinfônicas profissionais do país.
O programa prosseguiu no universo lírico wagneriano com a célebre abertura de Tristão e Isolda, uma das páginas mais revolucionárias da história da música. Nela, Wagner introduz um cromatismo audacioso e novas ideias melódicas que abriram caminhos inéditos para a linguagem musical, contribuindo decisivamente para a dissolução do sistema harmônico clássico e para o surgimento da sonoridade do século XX.
Sob a condução inspirada de Wagner Polistchuk, a OER revelou as múltiplas possibilidades expressivas dessa partitura extraordinária. A interpretação destacou a poderosa inventividade do compositor e evidenciou Wagner não apenas como dramaturgo musical, mas também como um sinfonista natural de imaginação inesgotável.
Assim, mais do que um tributo a Richard Wagner, o concerto afirmou também a maturidade artística da Orquestra Experimental de Repertório e, sobretudo, o valor de seu regente titular, Wagner Polistchuk músico que alia sólida formação técnica, inteligência interpretativa e rara vocação pedagógica, qualidades que o tornam figura central na preparação da nova geração de instrumentistas brasileiro.
A apresentação dedicada à obra de Richard Wagner revelou, mais uma vez, uma das características mais profundas da escrita wagneriana: em suas óperas, a orquestra frequentemente explica aquilo que as palavras ocultam ou aquilo que as próprias personagens ignoram em cena.
Na sequência, ouviu-se a entrada dos convidados para um certame trovadoresco da ópera Tannhäuser, momento brilhante pela presença do protagonista. Cavaleiros e damas chegam ao som majestoso de clarins triunfais em uma marcha solene que evoca, com grande eficácia, a atmosfera da época dos trovadores.
Seguiu-se então Siegfried, a segunda jornada de O Anel do Nibelungo, da qual se ouviu a cena da morte de Siegfried uma página orquestral de extraordinária densidade dramática. Nela se manifesta plenamente a imensidão da orquestração wagneriana, rica em melodismo e em complexas arquiteturas harmônicas que expandem a dimensão trágica da narrativa.
A música de Tannhäuser, sobretudo em sua segunda versão a chamada versão parisiense, hoje preferencialmente representada apresenta dois planos claramente perceptíveis: o profundamente dramático e o simbólico. Como em tantas obras de Wagner, surge aqui a ideia da redenção do homem pecador pelo amor de uma mulher pura, tema já presente em O Navio Fantasma. A partitura expõe com suprema eficácia o contraste entre dois mundos e evoca com grande acerto o universo espiritual e histórico dos trovadores medievais.
No Coro dos Peregrinos, ouviram-se inicialmente as vozes masculinas em poderosa homogeneidade sonora, culminando na cena final desta que permanece como uma das óperas mais queridas deste imenso compositor alemão.
Desta feita, vale ressaltar a presença do Coro Lírico Municipal de São Paulo, que brilhou rotundamente sob todos os aspectos nos diversos coros em que interveio. Merece especial menção a competente preparação do maestro argentino Hernán Sánchez Arteaga, que assumiu a direção desse octogenário conjunto coral que reúne inúmeros solistas líricos da cidade de São Paulo e apresentou, nesta ocasião, sonoridade de grande relevo em todos os seus naipes vocais.
Entretanto, diante da envergadura artística de um concerto coral-sinfônico dessa magnitude que reúne vasta orquestra, coro numeroso e repertório de tamanha densidade musical cabe uma reflexão importante. Um evento desta natureza mereceria, por justiça ao público e aos próprios artistas envolvidos, ao menos duas apresentações. A programação ideal contemplaria uma récita na sexta-feira ou no sábado, em horário vesperal (por exemplo às 17h00), e outra no domingo às 11h00, garantindo assim duas oportunidades reais para o público paulistano escolher o horário que melhor lhe convém e ampliando o alcance cultural de uma produção dessa importância.
Concertos desta dimensão não são acontecimentos corriqueiros. São momentos raros da vida musical da cidade e, justamente por isso, deveriam ser oferecidos em mais de uma sessão, permitindo que um número maior de ouvintes tenha acesso a essa experiência artística de alto nível. Trata-se não apenas de uma questão de organização de agenda, mas sobretudo de respeito ao público e valorização do próprio trabalho musical apresentado no palco.
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