A Missa de Requiem de Verdi sobe ao palco da Sala São Paulo neste mês de Agosto..

 


                                                   Elbphilharmonie Hamburg  (foto)


A Missa de Requiem,  de Giuseppe Verdi será apresentada na Sala São Paulo nos dias 20, 21 e 22 de Agosto pela OSESP e pelos Coros Lírico Municipal de São Paulo e da OSESP. A regência é de Andrew Litton, com os solistas Guanqun Yu, soprano; Luisa Francesconi, mezzo soprano; Joshua Blue, tenor e Peixin Chen, baixo. Ingressos à venda na Sala São Paulo. 

    Marco Antônio Seta                                                 


                                           Maestro Andrew Litton regerá o concerto

A Messa da Requiem, de Giuseppe Verdi, ocupa um lugar singular na história da música. Embora seja uma obra litúrgica baseada no texto latino da Missa dos Mortos da Igreja Católica, sua intensidade dramática, riqueza orquestral e força emocional aproximam-na da linguagem operística, levando muitos críticos a defini-la como "a maior ópera de Verdi sem encenação". Contudo, essa definição, embora sugestiva, não faz justiça à profunda dimensão espiritual da obra, concebida como uma homenagem ao escritor e patriota italiano Alessandro Manzoni.

A admiração de Verdi por Manzoni

Verdi nutria por Alessandro Manzoni uma veneração quase reverencial. Autor do romance I Promessi Sposi ("Os Noivos"), Manzoni era considerado um dos grandes símbolos do Risorgimento, o movimento que conduziu à unificação italiana. Para Verdi, ele representava a mais elevada expressão moral e intelectual da Itália.

Os dois homens encontraram-se apenas uma vez, em 1868. Após esse encontro, Verdi escreveu à esposa Giuseppina Strepponi:

"Como homem, ele é tudo aquilo que se pode desejar. Como santo, é uma dessas figuras que somente a Providência pode criar."

Quando Manzoni faleceu, em 22 de maio de 1873, aos 88 anos, Verdi ficou profundamente abalado. Incapaz de comparecer ao funeral em Milão, viajou alguns dias depois ao Cemitério Monumental para prestar sua homenagem em silêncio. Foi nesse momento que amadureceu a ideia de escrever uma grande Missa de Réquiem, numa monumental obra coral-sinfônica, dedicada à memória do escritor. E assim o fez. 

A origem do projeto

Curiosamente, parte da música do Requiem já existia.

Em 1868, após a morte de Gioachino Rossini, Verdi propôs que vários compositores italianos escrevessem coletivamente uma missa em homenagem ao mestre. Cada compositor ficaria responsável por um movimento.

Verdi escreveu o Libera me, o último número da obra.

O projeto, entretanto, fracassou por divergências organizacionais e jamais foi executado na época.

Cinco anos depois, ao decidir homenagear Manzoni, Verdi recuperou esse magnífico Libera me e construiu ao seu redor uma missa completamente nova.

A composição

Verdi trabalhou intensamente entre junho de 1873 e abril de 1874.

O resultado foi uma obra monumental para:

  • quatro solistas (soprano, mezzo-soprano, tenor e baixo);
  • coro misto;
  • grande orquestra sinfônica.

Embora respeite integralmente o texto litúrgico latino, Verdi imprime uma intensidade dramática inédita, explorando todos os contrastes emocionais possíveis:

  • terror diante do Juízo Final;
  • esperança na misericórdia divina;
  • angústia da morte;
  • serenidade da fé;
  • súplica pela salvação eterna.

A estreia

A estreia ocorreu em 22 de maio de 1874, exatamente um ano após a morte de Manzoni, na Igreja de San Marco, em Milão.

Verdi regeu pessoalmente a apresentação.

Dias depois, a obra foi apresentada no Teatro alla Scala, também sob sua direção.

O sucesso foi extraordinário.

Em seguida, o compositor levou o Requiem para Paris, Viena, Londres e diversas capitais europeias, consolidando rapidamente a obra como um dos maiores monumentos da música sacra.



                        A estrutura da grandiosa Missa de Réquiem impõe coro numeroso e grande orquestra 


A estrutura

A Missa divide-se em sete grandes partes:

  1. Requiem e Kyrie
  2. Dies Irae
  3. Offertorio
  4. Sanctus
  5. Agnus Dei
  6. Lux Aeterna
  7. Libera me

Entre todos os movimentos, o Dies Irae tornou-se um dos trechos mais célebres da história da música.

Seu início impressiona pelo impacto sonoro dos metais, da percussão e das cordas, representando o Dia do Juízo Final com violência quase apocalíptica. Em contraste, páginas como o Lacrimosa, o Agnus Dei e o Lux Aeterna revelam momentos de profunda introspecção e delicadeza espiritual.

Uma obra entre a fé e o teatro

Desde sua estreia, o Requiem gerou debates.

Alguns críticos do século XIX consideraram a obra "teatral demais" para uma missa, alegando que Verdi utilizava recursos típicos da ópera.

Outros defenderam justamente o contrário: a dramaticidade seria a maneira encontrada por Verdi para expressar, de forma profundamente humana, o medo da morte, a esperança na redenção e a fragilidade da condição humana.

Hoje prevalece a visão de que essa fusão entre espiritualidade e teatro constitui precisamente a originalidade da obra.

Um dos maiores monumentos da música ocidental

A Messa da Requiem permanece como uma das mais importantes composições sacras de todos os tempos, ao lado dos Réquiens de Wolfgang Amadeus Mozart, Hector Berlioz, Johannes Brahms (embora este tenha composto um réquiem em língua alemã e não litúrgico) e Gabriel Fauré, o compositor francês encerra essa sequência. 

Mais de um século e meio, há 152 anos,  após sua criação, a obra continua sendo executada pelos maiores teatros, orquestras e festivais do mundo. Sua força expressiva, aliada à extraordinária arquitetura musical, faz da Messa da Requiem não apenas uma homenagem imortal a Alessandro Manzoni, mas também uma profunda reflexão sobre a vida, a morte, a esperança e a condição humana. É uma síntese magistral do gênio de Verdi: um compositor capaz de unir a intensidade dramática da ópera à transcendência da música sacra, produzindo uma das criações mais comoventes e universais do repertório ocidental.

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