"Tristão e Isolda" retorna ao Municipal após 48 anos: uma grande noite vocal, uma regência aquém do desafio wagneriano
Há montagens que se tornam referência e passam a integrar a memória artística de um teatro. Assim ocorreu com Tristão e Isolda, de Richard Wagner, apresentada pelo Theatro Municipal de São Paulo em 1978, produção que permanece como um dos maiores acontecimentos da história lírica da casa. Sob a direção musical e regência do extraordinário maestro austríaco Dietfried Bernett e direção cênica de Werner Michael Esser, o Municipal reuniu um elenco autenticamente wagneriano: a soprano dramática Rose Wageman, o tenor heroico Karl-Walter Boehm, o barítono Rudolf Holtenau, o baixo Malcolm Smith, a mezzo-soprano Gertrude Jahn e o baixo-barítono Guido de Kehrig, no papel de Melot. Quase meio século depois, qualquer novo encontro do público paulistano com essa obra monumental inevitavelmente seria confrontado com aquela memorável realização.
Foi, portanto, sob esse peso histórico que o Theatro Municipal voltou a apresentar a obra-prima de Wagner. O resultado esteve distante da grandeza artística que a partitura exige. Ainda assim, graças à inteligência da concepção cênica de Alex Aguilera e, sobretudo, ao elevado nível do elenco internacional reunido, o espetáculo conseguiu alcançar momentos de inegável beleza e intensa emoção.
Aguilera optou por uma encenação de forte dimensão poética, evitando leituras panfletárias, desconstrutivistas ou provocações gratuitas que tantas vezes se tornaram moda no teatro lírico contemporâneo. Sua direção privilegiou a essência psicológica dos personagens, permitindo que a música permanecesse como verdadeira protagonista do drama. Houve imagens de grande impacto visual e soluções cênicas refinadas que dialogaram organicamente com a narrativa wagneriana.
O grande triunfo da noite foi, sem qualquer contestação, Simon O'Neill. Não é difícil compreender por que o tenor neozelandês ocupa lugar de destaque nas temporadas dos maiores teatros do mundo. Seu Tristão alia resistência física impressionante, emissão sólida e inteligência interpretativa. A voz mantém corpo, projeção e brilho ao longo de uma das mais extenuantes escritas para tenor em todo o repertório operístico. No monumental terceiro ato, onde tantos intérpretes sucumbem ao desgaste vocal, O'Neill alcançou uma interpretação de rara intensidade dramática, conduzindo a longa agonia do protagonista com absoluto domínio técnico e extraordinária força expressiva. Pouquíssimas produções brasileiras tiveram, nas últimas décadas, o privilégio de contar com um artista dessa categoria.
Annemarie Kremer não pertence ao restrito grupo das grandes Isoldas da atualidade, embora venha ampliando seu repertório dramático — em novembro cantará Brünnhilde no Teatro Colón. Sua voz apresenta limitações na região central, cuja projeção nem sempre consegue atravessar a massa orquestral. Em compensação, os agudos surgem livres, seguros e volumosos, sustentados por uma entrega dramática constante. Sua narrativa do primeiro ato evidenciou dificuldades de projeção, mas a artista cresceu progressivamente ao longo da apresentação. O extenso dueto de amor do segundo ato encontrou perfeita integração com Simon O'Neill, enquanto o Liebestod foi interpretado com sensibilidade, nobreza de fraseado e intensa emoção. Não é, talvez, a Isolda ideal, mas realizou uma composição artisticamente consistente e profundamente comprometida com o drama.
Entre os papéis secundários, destacaram-se o Rei Marke de Hernan Iturralde, de canto sólido e autoridade cênica, e o Kurwenal de Leonardo Neiva, cuja atuação revelou vigor dramático raro entre os barítonos brasileiros da atualidade. Sua entrega foi exemplar. Apenas a discutível decisão da direção cênica de levá-lo ao suicídio destoa frontalmente do espírito da obra e rompe desnecessariamente a coerência dramatúrgica concebida por Wagner.
Entretanto, se o palco ofereceu momentos de elevado nível artístico, o mesmo não se pode afirmar do fosso orquestral.
A direção musical de Roberto Minczuk jamais alcançou a monumental arquitetura sinfônica exigida por Tristão e Isolda. Wagner escreveu uma das partituras mais sofisticadas da história da música ocidental, cuja complexidade exige não apenas domínio técnico absoluto, mas extensa preparação orquestral e refinamento interpretativo. Nada disso se ouviu de forma plenamente convincente nesta execução.
A Orquestra Sinfônica Municipal apresentou sinais evidentes de preparação insuficiente. Os desencontros entre os sopros de madeira repetiram-se em diversos momentos; as cordas careceram da homogeneidade sonora indispensável ao contínuo tecido harmônico da obra; as trompas sofreram desafinações perceptíveis; ataques imprecisos e desequilíbrios entre os naipes comprometeram sucessivamente a fluidez musical. Não se tratam de pequenos acidentes inevitáveis numa execução ao vivo, mas de sintomas claros de um trabalho de ensaios aquém das necessidades impostas por uma das partituras mais difíceis já escritas.
A situação torna-se ainda mais preocupante quando se observam os cortes efetuados na partitura. Em uma obra cuja construção dramática depende precisamente da continuidade musical concebida por Wagner, qualquer supressão precisa ser cuidadosamente justificada. Aqui, ao contrário, as mutilações apenas empobrecem o discurso musical.
Particularmente lamentável foi a substituição do Holztrompete, previsto por Wagner na chegada de Isolda no terceiro ato, pelo corne inglês. Trata-se de uma alteração que modifica significativamente a cor tímbrica originalmente imaginada pelo compositor, empobrecendo um dos momentos de maior sugestão sonora da obra.
E é justamente nesse ponto que a lembrança da produção de 1978 torna-se inevitável. A regência monumental de Dietfried Bernett permanece como paradigma de equilíbrio, tensão dramática, refinamento orquestral e absoluto domínio do universo wagneriano. Comparações, neste caso, não favorecem a atual realização. Ao contrário, evidenciam o quanto o Theatro Municipal perdeu, ao longo das últimas décadas, da tradição musical que um dia o colocou entre as principais casas de ópera da América Latina.
Nos papéis menores, Paulo Queiroz, como o Marinheiro, interpretou seu canto inicial com excessiva veemência, aproximando-se mais de um chamado militar do que da atmosfera contemplativa e quase etérea imaginada por Wagner para essa breve intervenção à capela. Jessé Vieira (Melot) e Cleyton Pulzi completaram o elenco de forma correta.
Ao término da apresentação, restou a sensação de que o Theatro Municipal finalmente devolveu ao seu público uma das maiores obras da história da ópera, mas não a grande realização artística que quase cinquenta anos de espera pareciam prometer. O brilho excepcional do elenco internacional, aliado à inspirada concepção cênica de Alex Aguilera, impediu que a noite se convertesse em frustração completa. Ainda assim, quando o parâmetro permanece sendo a histórica produção de 1978, torna-se impossível ignorar que o verdadeiro protagonista ausente desta nova montagem foi justamente aquilo que sustenta toda a arquitetura de Tristão e Isolda: uma direção musical verdadeiramente à altura do gênio de Richard Wagner.
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