Andrea Chénier retornar com êxito ao Theatro Municipal de Santiago
Escrito por Marco Antonio Seta
Andrea Chénier, ópera em quatro atos de Umberto Giordano, com libreto primoroso
de Luigi Illica, estreou em 28 de março de 1896, no Teatro alla Scala, em Milão,
alcançando um êxito extraordinário junto ao público e à crítica. Inspirada na
vida do poeta francês André Chénier, executado durante o período do Terror da
Revolução Francesa, a obra alia a intensidade dramática do verismo a um refinado
tratamento poético e musical. O libreto de Illica destaca-se pela excepcional
qualidade literária, construindo personagens de grande densidade psicológica
e um enredo em que paixão, idealismo e tragédia se entrelaçam de forma
magistral.
Sustentada por uma partitura de rara inspiração, repleta de páginas memoráveis e
de extraordinária força emocional, Andrea Chénier consolidou-se como uma das
obras-primas do repertório operístico italiano, mantendo, desde sua estreia
triunfal, um lugar de destaque nos maiores teatros de ópera do mundo.
O ponto
central do êxito desta nova produção de Andrea Chénier reside, antes de tudo, na
competente direção musical do maestro espanhol Sergio Alapont. Regendo com
autoridade, segurança e absoluto domínio da partitura, Alapont soube estabelecer
um perfeito equilíbrio entre palco e fosso, conduzindo com refinamento as
entradas dos cantores sobre um tecido orquestral de grande riqueza sonora. Sob
sua batuta, a Orquesta Filarmónica de Santiago proporcionou momentos de elevada
inspiração, destacando-se especialmente o expressivo solo de violoncelo que
antecede a célebre ária de Maddalena, "La mamma morta", no terceiro ato.
No plano
cênico, o excelente e experiente regisseur Pier Francesco Maestrini demonstrou pleno
conhecimento teatral. Com movimentação fluida e grande sensibilidade dramática,
imprimiu agilidade às cenas de conjunto e às intervenções dos solistas, sem
recorrer a leituras arbitrárias ou conceituais. Ao contrário, manteve absoluto
respeito ao contexto histórico da Revolução Francesa em seu período mais
sangrento, revelando-se extremamente fiel ao libreto de Luigi Illica, uma das
realizações literárias mais felizes do repertório verista italiano. O Coro do Teatro Municipal portou-se eficazmente, colaborando com o êxito do espetáculo.
A cenografia
concebida por Nicolás Boni mostrou-se elegante e funcional, oferecendo belos
ambientes que contribuíram decisivamente para a ambientação dramática da obra.
Também de sua autoria, o desenho de vídeo integrou-se harmonicamente à
narrativa. Os figurinos de Stefania Scaraggi revelaram bom gosto e
funcionalidade, enquanto a iluminação de Daniele Naldi e Ricardo Castro produziu
efeitos de grande impacto visual. A coreografia e a assistência de direção
ficaram a cargo de Silvia Giordano, cujo trabalho complementou com eficiência o
conceito cênico de Maestrini.
Para o papel-título foram escalados dois tenores
estrangeiros: Antonio Gandia e Denys Pivnitskyi*
Na estreia, Antonio Gandía apresentou um instrumento de timbre
excessivamente claro para um personagem de natureza marcadamente dramática.
Embora demonstre musicalidade e experiência, seu registro de tenor lírico carece
do peso vocal exigido por Andrea Chénier, sobretudo na região central e grave da
tessitura. Essa limitação compromete a expansão tímbrica da voz, conferindo-lhe
uma sonoridade por vezes inadequada às exigências da partitura. Cênicamente, sua
caracterização tampouco consegue projetar todo o magnetismo inerente à figura do
poeta francês. No segundo elenco, Denys Pivnitskyi mostrou desempenho ainda
menos convincente. O tenor não apresenta controle suficiente do material vocal,
desafinando em diversas passagens e revelando escasso envolvimento dramático com
o personagem, o que enfraquece significativamente sua interpretação.
O soprano
lírico coreano Gloria Jieun Choi, como Maddalena di Coigny, apresentou uma
interpretação vocal consistente. Embora um tanto estática em cena, demonstrou
bom controle técnico e produziu belos momentos de canto, sendo justamente
ovacionada após sua interpretação da célebre ária La mamma morta, ponto
culminante de sua atuação cênico-vocal. No segundo elenco, Yunuet Laguna
ofereceu uma leitura igualmente competente da personagem. Apesar da ausência de
maior consistência nas notas graves, apresentou desempenho seguro e musicalmente
satisfatório. O grande destaque vocal da produção foi, sem dúvida, o barítono
Gihoon Kim, no papel de Carlo Gérard. Aliando completo domínio cênico a uma voz
de belo volume, homogênea e plenamente adequada às exigências do personagem,
construiu uma interpretação de elevado nível artístico. Sua execução da célebre
ária Nemico della Patria constituiu um dos momentos culminantes da apresentação,
recebendo a maior ovação da noite de estreia. Trata-se de um barítono
particularmente vocacionado para papéis como o Barão Scarpia (Tosca), Iago (Otello) e
Don Carlo di Vargas (La forza del destino) e Jack Rance de "La Fanciulla del
West"; repertório ao qual sua voz se adapta com naturalidade. Seu substituto,
Giuseppe Altomare, embora possua experiência e conheça profundamente o estilo
italiano, evidencia um instrumento vocal já bastante desgastado, aliado a uma
impostação deficiente, fatores que limitaram sensivelmente sua interpretação.
No
papel da mulata Bersi, Paulina González realizou bom desempenho vocal, embora a
caracterização cênica pudesse beneficiar-se de um visagismo mais elaborado. Como
Condessa di Coigny, a mezzo-soprano Evelyn Ramírez apresentou uma composição
excessivamente arrogante da personagem, somada a uma projeção vocal
insuficiente. Também como Madelon, sua voz revelou limitações para a escrita
grave exigida pela personagem.
O chamado supporting cast revelou bom nível
geral, destacando-se Ramiro Maturana e Javier Weibel como Roucher, as sonoras vozes de Gonzalo Araya
e David Rojas nos papéis de L'Incredibile e L'Abate, além de Matías Moncada,
correto como Mathieu e Pedro Alarcón ( el Mayordomo, Dumas e Schmidt). No conjunto, esta produção chilena de Andrea Chénier
confirma a permanência da obra de Umberto Giordano entre as maiores realizações
do verismo italiano. Amparada por uma direção musical de alto nível, encenação
tradicional, fiel e respeitosa, cenografia de qualidade e um elenco vocal em que
sobressai a extraordinária atuação de Gihoon Kim, a montagem alcança um
resultado artístico digno de destaque, apesar das limitações verificadas em
parte do elenco de tenores. A fidelidade ao espírito concebido por Luigi Illica
e Umberto Giordano constitui, sem dúvida, uma das maiores virtudes desta
bem-sucedida realização do Teatro Municipal de Santiago.
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