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Após quase 50 anos ausente dos palcos nacionais, obra monumental de Carlos Gomes retorna em montagem grandiosa no Teatro Amazonas, unindo excelência musical, resgate histórico e o esplendor do 27º Festival Amazonas de Ópera.
No coração da floresta amazônica, o monumental Teatro Amazonas volta a acolher uma das partituras mais ambiciosas e raramente apresentadas de Carlos Gomes: Salvator Rosa. A montagem, que estreia hoje às 19h dentro da programação do 27º Festival Amazonas de Ópera, representa não apenas um acontecimento artístico de enorme relevância, mas também um verdadeiro resgate histórico da ópera brasileira do século XIX.
A reaparição de Salvator Rosa nos palcos nacionais possui um peso simbólico singular. A última montagem brasileira da obra ocorreu em setembro de 1977, no Theatro Municipal de São Paulo, sob regência do maestro Simon Blech, à frente da Orquestra Sinfônica e do Coral Lírico Municipal. Na última vez apresentada em São Paulo, ouviram-se as vozes do tenor brasileiro Benito Maresca, do soprano argentino Nina Carini (Isabella), do barítono Paulo Fortes (Massaniello), do baixo Edilson Costa (Duque d'Arcos); soprano Ruth Staerke como (Genariello); e Aguinaldo Albert, Ayrton Nobre, Wilson Carrara, Boris Farina e Leila Tayer, no supponting cast.
Quase meio século depois, o Festival Amazonas de Ópera devolve ao público uma criação que ocupa lugar central na trajetória internacional de Carlos Gomes e que permanece injustamente ausente do repertório operístico brasileiro.
A ópera teve sua estreia mundial em 1874, no Teatro Carlo Felice, em Genova, alcançando expressivo sucesso na Itália. Naquele momento, Carlos Gomes já despontava como um dos raros compositores não europeus a conquistar reconhecimento efetivo no universo lírico italiano. Depois do triunfo de Il Guarany, o compositor brasileiro consolidava sua reputação com uma escrita musical vigorosa, teatralmente intensa e profundamente conectada à tradição melodramática italiana.
O poeta e romancista italiano Antonio Ghislanzoni viveu entre 1824 e 1893
Baseada em libreto de Antonio Ghislanzoni o mesmo poeta que colaboraria com Giuseppe Verdi em Aida ; Salvator Rosa mergulha em um ambiente político turbulento, de conspirações, rebeldia popular e heroísmo romântico ambientado na Nápoles do século XVII. Ghislanzoni construiu uma dramaturgia carregada de tensões passionais e impulsos grandiloquentes, características típicas do melodrama italiano oitocentista. Entretanto, segundo a crítica histórica, Carlos Gomes soube refinar o libreto com inteligência teatral e musical.
A produção amazonense reúne forças artísticas de grande relevância. A direção artística do festival é assinada por Luiz Fernando Malheiro, também responsável pela direção musical e regência desta montagem, enquanto Caio André Pinheiro de Oliveira responde pela direção geral e Flávia Furtado pela direção executiva.
No fosso, estarão a Amazonas Filarmônica e o Coral do Amazonas, pilares fundamentais da atividade lírica amazonense, além da participação do Balé Folclórico do Amazonas. A direção cênica é de Julianna Santos, com coreografia de Monique Andrade e cenografia concebida por Renato Theobaldo.
O elenco evidencia a amplitude internacional do festival. O tenor chileno Enrique Bravo interpreta o protagonista Salvator Rosa, ao lado de Cristhiano Silva como Conde de Badajoz e Humberto Sobrinho no papel de Fernandez. Entre as vozes femininas destacam-se Eiko Senda como Isabella, Carolina Morel no papel de Gennariello e Mirian Abad interpretando Irmã Inês/Bianca.
O núcleo grave reúne o baixo Luiz-Ottavio Faria como Duque D’Arcos, Emanuel Conde no papel de Corcelli, Roberto Paulo Silva, como Irmão Lorenzo, além do barítono sul-coreano Sunu Seungwoo Sun (Massaniello)
A montagem terá apresentações nos dias 17 e 19, sempre às 19h, dentro de uma programação que mantém o Festival Amazonas de Ópera em atividade até o dia 31. Mais do que recuperar uma obra rara, esta produção reafirma o papel do festival amazonense como um dos principais centros de preservação e difusão do patrimônio lírico brasileiro e latino-americano.
Ao recolocar Salvator Rosa em cena, Manaus não apenas revive uma página importante da história operística nacional, mas também devolve atualidade a uma criação cuja força dramática, refinamento orquestral e eloquência melódica continuam a impressionar. Em um país que frequentemente negligencia sua própria tradição lírica, esta reapresentação assume caráter histórico, artístico e cultural de primeira grandeza.
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