Macbeth revela mais uma vez a genialidade de Giuseppe Verdi (1813–1901), ao transpor para o palco lírico a densidade psicológica e o terror poético de William Shakespeare.

Em sua nova versão, Macbeth revela mais uma vez a genialidade de Giuseppe Verdi (1813–1901), ao transpor para o palco lírico a densidade psicológica e o terror poético de William Shakespeare
Escrito por Marco Antônio Seta

A grandiosa partitura de Macbeth ganha nova roupagem nesta leitura contemporânea, onde Giuseppe Verdi (1813–1901) dialoga intensamente com o texto original de William Shakespeare.

A nova versão da ópera Macbeth, de Giuseppe Verdi, não se limita a revisitar o drama concebido por William Shakespeare ela o tensiona, expondo suas fraturas morais com uma crueza que, em muitos momentos, ultrapassa o próprio texto teatral. Aqui, a música verdiana não atua como mero suporte narrativo, mas como força motriz da tragédia: é ela que escava a psique dos personagens, revelando o abismo ético em que Macbeth e sua consorte se lançam sem retorno.

A condução de Riccardo Muti privilegia uma leitura rigorosa e estruturalmente sólida, mas não isenta de certa contenção dramática. Se, por um lado, há um controle admirável das massas orquestrais e do fraseado, por outro, sente-se ocasionalmente a falta de maior ferocidade, elemento essencial para traduzir a brutalidade visceral que atravessa a partitura. Ainda assim, Muti sustenta com inteligência a arquitetura musical, deixando que a tensão emerja de forma progressiva, quase sufocante.

Na encenação de Chiara Muti, a sobriedade estética não é um recurso neutro, mas uma escolha deliberada que potencializa o vazio existencial dos protagonistas. A penumbra constante, longe de ser mero artifício visual, torna-se metáfora da consciência obscurecida pela ambição. O palco, despojado, parece negar qualquer possibilidade de redenção como se o destino trágico já estivesse selado desde o primeiro compasso.

No plano vocal, Luca Micheletti constrói um Macbeth introspectivo, mais corroído internamente do que explosivo, o que, embora interessante sob o prisma psicológico, por vezes dilui o impacto dramático esperado. Já Lidia Fridman oferece uma Lady Macbeth de grande refinamento técnico, mas cuja emissão lírico-spinto carece de maior aspereza e veneno,  qualidades fundamentais para encarnar a dimensão quase demoníaca da personagem. Ainda assim, sua precisão nas passagens de coloratura é inegavelmente impressionante. Seus papéis cotidianos são em síntese a Lucrezia Borgia, Norma, Mina (Aroldo), Donna Elvira, Eugene Onegin (Tatiana); Cassandra, Salomé, Amelia de Un ballo in maschera, Le Nozze di Figaro (Condessa de Almaviva)

O Banquo de Maharram Huseynov impõe-se com nobreza sombria, enquanto Giovanni Sala confere a Macduff a necessária carga de lirismo e desespero, especialmente em seus momentos mais expostos.

No conjunto, trata-se de uma leitura que privilegia a introspecção em detrimento do impacto visceral, apostando mais na densidade psicológica do que na violência explícita. Ainda assim, a fusão entre a palavra trágica de Shakespeare e a música incandescente de Verdi permanece intacta em sua essência: um retrato implacável da ambição humana e de suas consequências irreversíveis.


O barítono italiano Luca Micheletti é Macbeth


O soprano russo Lidia Fridman uma bela Lady Macbeth

Maharram Huseynov nasceu em Baku. Formou-se na Escola de Música Leopold e Mstislav Rostropovich em Baku (classe de Svetlana Mirzoyeva). Entre 2009 e 2013, participou do Festival Internacional de Música Mstislav Rostropovich (Baku), do Festival Internacional de Música Uzeyir Hajibeyli e do Festival Internacional de Música Gabala (Azerbaijão). Em 2011, o nome de Maharram Huseynov foi incluído no Livro de Ouro dos Jovens Talentos do Azerbaijão. Seus papéis são: Eugene Onegin, Dr. Dulcamara,  Mustafá, Oroveso, Don Ruiz Gómez de Silva, Lodovico, Conde Monterone, Angelotti, Colline, Roucher, Guillaume Tell, Nilakantha em (Lakmé) entre outros. 


O baixo russo Maharram Huseynov


Giuseppe Verdi: Macbeth, melodrama en cuatro actos con libreto de Francesco Maria Piave y Andrea Maffei basado en la tragedia homónima de William Shakespeare. Luca Micheletti (Macbeth), Lidia Fridman (Lady Macbeth), Maharram Huseynov (Banquo), Giovanni Sala (Macduff), , Riccardo Rados (Malcolm), Chiara Polese (Dama de Lady Macbeth), Eduardo Martínez Flores (Un sirviente). Coro y Orquesta del Teatro Regio di Torino. Riccardo Muti, dirección musical. Chiara Muti, dirección escénica. Nueva producción del Teatro Regio Torino en coproducción con el Teatro Massimo di Palermo.

Comentários