- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Diante da Sala São Paulo, uma arena pública permanece abandonada enquanto orquestras financiadas pelo próprio contribuinte ignoram o acesso gratuito à cultura negligência ou escolha deliberadamente excludente?
Escrito por Marco Antônio Seta
A cidade de São Paulo, com uma população de 11.451.999 habitantes, conta com algumas orquestras sinfônicas. Todos os admiradores da música clássica sabem quais são elas e reconhecem que, para assistir às apresentações, é necessário adquirir ingressos com antecedência nem sempre a preços acessíveis. Quando conjuntos estrangeiros se apresentam, especialmente em turnês pela América do Sul, os valores tendem a ser ainda mais elevados, o que dificulta o acesso do grande público às salas de concerto.
Considerando essas variáveis, é inevitável levantar um questionamento incômodo e necessário sobre o uso (ou a flagrante inutilização) do espaço público situado em frente à Sala São Paulo. Trata-se de uma área de grande valor simbólico e urbano, frequentada por habitués da música de concerto, implantada na antiga Praça Júlio Prestes espaço que já foi ocupado pela rodoviária da cidade entre as décadas de 1960 e até 1985. Após ali se construiu uma praça renovada, dotada de uma arena aberta que, em tese, configura-se como um palco natural, como uma intervenção urbana, para manifestações artísticas de grande alcance público.
Entretanto, o que se observa é um silêncio ensurdecedor.
Nunca se viu naquele espaço uma apresentação de orquestra sinfônica. Nunca se viu ali a ocupação artística que sua estrutura sugere e praticamente implora. E isso apesar de ser um local perfeitamente adequado não apenas para orquestras, mas também para corais, bandas de diversos gêneros e até espetáculos de dança. A omissão torna-se ainda mais gritante quando comparada a cidades de porte semelhante ou até inferior a São Paulo, onde iniciativas dessa natureza são não apenas comuns, mas parte integrante de políticas culturais consistentes e inclusivas.
Por que, então, essa negligência?
Por que um espaço público dessa magnitude permanece subutilizado, enquanto o acesso à música de concerto segue restrito a salas fechadas e ingressos frequentemente inacessíveis para a maioria da população? Por que não se oferece ao cidadão, que sustenta com seus impostos as estruturas culturais do Estado e do município, a possibilidade de vivenciar gratuitamente uma apresentação musical de qualidade em praça pública?
Ou será que esse direito só se materializa em ocasiões pontuais e simbólicas, como no aniversário da cidade?
O contraste com outras realidades é inevitável. Em Buenos Aires, por exemplo, já se assistiu à transmissão simultânea da ópera La Bohème, apresentada no Teatro Colón, para milhares de pessoas reunidas em praça pública, acompanhando o espetáculo em telões com entusiasmo e participação coletiva. Em outra ocasião, na mesma cidade, uma multidão se reuniu em um jardim, em plena manhã, para assistir a um concerto de orquestra sinfônica com coro um evento que incendiou o público e demonstrou, de forma inequívoca, que a música clássica pode, sim, dialogar com o espaço aberto e com o grande público. Por outra face a Orquestra Filarmônica de Santiago apresentou um concerto sinfônico na praça, ao lado do Teatro Municipal, na presença de um público numeroso que por alí passava, às 15 horas de uma quarta-feira.
E em São Paulo?
Um espaço amplo, emblemático e estrategicamente localizado diante da Sala São Paulo permanece vazio de iniciativas dessa natureza. Nenhuma apresentação oferecida pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, nenhuma mobilização da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo, nenhum gesto da Orquestra Jazz Sinfônica do Estado, tampouco das orquestras mantidas pela Prefeitura. O mesmo silêncio se estende ao Coro da OSESP, ao Coro Juvenil da OSESP, ao Coral Paulistano do Complexo Theatro Municipal, ao Coro da Academia da OSESP, ao Coro Infantil da OSESP, conjuntos de excelência que, inexplicavelmente, não ocupam esse espaço com programações abertas e gratuitas.
Diante disso, é inevitável interpelar diretamente a Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas e a Fundação OSESP: por que ignorar o grande público? Por que manter a música de concerto confinada a ambientes restritos, apenas a um público praticamente de convidados, quando há um espaço público pronto para democratizá-la? Por que negar ao cidadão o acesso à cultura que ele próprio financia?
Não se trata de falta de estrutura. Não se trata de impossibilidade técnica. E tampouco de distância de suas sedes administrativas. Trata-se, ao que tudo indica, de ausência de vontade ou, pior, de uma visão cultural excludente, que insiste em manter a música de concerto distante do povo. Inexorável.
E isso, em uma cidade como São Paulo, não é apenas um desperdício.
É uma escolha. E uma escolha profundamente questionável. Lamentavelmente !
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos

Comentários