Temporadas inesquecíveis em São Paulo; 1978 no Theatro Municipal (Escrito por Marco Antônio Seta)


Entre a grandeza artística de 1978 e a mediocridade administrativa atual: o declínio programático do Theatro Municipal sob a gestão da Sustenidos.



 A Temporada Lírica de 1978 apresentou seis óperas, sofreu alterações em seu elenco artístico anunciado e ainda incorporou mais um título do repertório italiano algo que hoje pareceria ousadia administrativa. Sob o patrocínio do Banco Real e da Prefeitura do Município de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, e realizada por Emílio Billoro Promoções Culturais S/C Ltda., a temporada concretizou-se no Theatro Municipal de São Paulo com uma densidade artística que contrasta de maneira quase constrangedora com a fragilidade programática observada nas temporadas recentes sob gestão da Sustenidos Organização Social de Cultura.

Tratava-se de uma temporada verdadeiramente eclética algo que há anos não se via ainda que orbitasse as doze óperas mais populares do repertório universal. Mesmo assim, incluía-se uma obra de autor nacional, gesto que, diferentemente de hoje, não era mero ornamento simbólico. Havia uma comissão técnica qualificada, reunida em período de recesso artístico, com licitação pública para empresários interessados na organização da temporada. Os envelopes eram abertos, as propostas analisadas, e a escolha ocorria por voto. Havia critério. Havia debate. Havia responsabilidade cultural.

Carmen – Georges Bizet

A abertura deu-se com Carmen, de Georges Bizet obra emblemática do repertório internacional, cuja escrita orquestral e dramaticidade híbrida franco-espanhola permanecem insuperáveis. Os cenários de Mario Mantovani e a regência do maestro concertatore ítalo-argentino Michelangelo Veltri elevaram a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo a um patamar de excelência sonora.

Gilbert Py apresentou um Don José de categoria; Ruth Staerke (Micaela) tornou-se uma das mais aplaudidas da história do teatro; Francine Arrauzau encarnou a Carmen aguardada pelo público; Franco Bordoni (Escamillo) somou-se a um elenco nacional de peso: Wilson Carrara, Assunção de Lucca, Odete Violani Hansson, Assadur Kiulthzian, João de Brás e Odnilo Romanini. Sinfônica Municipal, Coral Lírico, Canarinhos Liceanos do Liceu Coração de Jesus e Corpo de Baile do Teatro Municipal completaram a produção. Teatro lotado em todas as récitas algo que hoje já não é regra, mas exceção.

Simon Boccanegra – Giuseppe Verdi


       Cena da ópera "Simon Boccanegra", de Giuseppe Verdi

A segunda ópera foi Simon Boccanegra, de Giuseppe Verdi — obra do segundo período verdiano, raramente encenada em São Paulo à época. Durante os ensaios, o soprano argentino Nina Carini adoeceu gravemente, retornando a Buenos Aires, onde veio a falecer vítima de câncer. Substituída por Ileana Sinnone como Amelia Grimaldi, a produção manteve alto nível artístico.

Renato Bruson foi um Simon de excelência; Nino Meneghetti destacou-se como Jacopo Fiesco; Nicola Martinucci interpretou Gabriele Adorno com vigor; Costanzo Mascitti foi Paolo Albiani; completaram o elenco De Faro Rollemberg e Jairo Vaz. Michelangelo Veltri regeu com sensibilidade exemplar, preservando as vozes. Cenários imponentes de Giancarlo Bartolini e figurinos de George Wakhevitch — hoje inexistentes em ambição visual — marcaram a produção. Coordenação geral e coro sob Marcello Mechetti.

Manon Lescaut e Madama Butterfly – Giacomo Puccini

"Manon Lescaut" foi anunciada com o soprano Yasuko Hayashi, que cancelou às vésperas, sendo substituída por Gabriella Cegolea, ladeada por Nicola Martinucci (Des Grieux) e pelo barítono brasileiro Fernando Teixeira. Produção regida por Michelangelo Veltri.

Para suprir o adiamento de Maria Tudor, inseriu-se "Madama Butterfly". Mirta Garbarini foi a protagonista, com Eduardo Álvares, Odette Violani-Hansson, Fernando Teixeira e Assadur Kulthzian, sob direção musical de Mario Perusso e direção cênica de Emmerson Eckmann. Teatro lotado nas seis récitas das duas óperas puccinianas. Hoje, inserções emergenciais dificilmente manteriam tal padrão artístico e menos ainda tal adesão de público.

Tristan und Isolde – Richard Wagner

Tristan und Isolde, de Richard Wagner, coroou a temporada com Karl Walter Boehm, Rose Wageman, Rudolf Holtenau, Malcolm Smith, Gertrude Jahn e Guido de Kehrig, sob a regência e direção musical de Dietfried Bernet e direção cênica de Werner Michael Esser. Um triunfo inequívoco — artístico, vocal e orquestral — que reafirmava a vocação internacional do teatro.

Maria Tudor, de Antonio Carlos Gomes (1836-1896)

Finalmente, após três meses de adiamento, estreou em 15/12/1978 com duas repetições, "Maria Tudor", de Carlos Gomes. Mabel Veleris, proveniente do Teatro Colón de Buenos Aires,  assumiu a desafiadora partitura com brilho, ao lado de Eduardo Álvares, Adriana Cantelli, Fernando Teixeira, Wilson Carrara, Luiz Orefice, Assadur Kiulthzian, Leila Tayer e Odnilo Romanini. Cenários e figurinos de Flávio Phebo, direção cênica de José Renato. Maestro concertator Mario Perusso.


O que se vê, ao revisitar 1978, não é apenas nostalgia. É constatação. Havia planejamento, densidade de repertório, ambição estética, elencos robustos, cenografia monumental e casa cheia. A comparação com a realidade atual do Theatro Municipal de São Paulo, sob a administração da Sustenidos Organização Social de Cultura, revela temporadas enxutas, repertórios repetitivos, produções visualmente empobrecidas e um distanciamento crescente do público tradicional.

Se outrora discutia-se estética, hoje discute-se orçamento. Se antes havia critério técnico na escolha dos organizadores, hoje impera a burocratização da arte. A temporada de 1978 demonstra que São Paulo já soube ser centro lírico de relevância internacional. A pergunta que ecoa, incômoda, é: quando voltará a sê-lo?

Temporadas que não mais retornam ao Theatro Municipal de São Paulo e cuja ausência revela, mais que saudade, uma preocupante decadência institucional.

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