Macbeth
sob vaias e apupos no Theatro Municipal
de São Paulo
Na noite de estreia, em 31 de outubro de 2025, “Macbeth” teve regência de Roberto Minczuk à frente da Orquestra Sinfônica Municipal. Embora coesa, a orquestra
apresentou andamentos instáveis,
ora excessivamente ralentados, ora
precipitadamente acelerados, o que
resultou em descompassos dinâmicos
que, não raro, encobriram as massas vocais
dos solistas ou se afastaram das
intenções originais inscritas na partitura verdiana, com mutilações em
partes da obra.
De forma ainda mais discutível, suprimiu-se
a música do balé, mesmo tratando-se da versão parisiense, a segunda, (1865) revisada pelo
próprio Giuseppe Verdi, na qual esse trecho é parte integrante da
dramaturgia musical.
No plano cênico, Elisa Ohtake impôs uma leitura que submete os
protagonistas a situações de ostentada
desconstrução, fazendo-os esfregar-se
pelas paredes do teatro, transitar
pelos corredores e camarins, e interagir
com elementos banais do cotidiano, projeções num telão de servir-se de
Catuaba Selvagem num copo de botequim; glissando ao piano vertical Yamaha usado para vocalizações, a leitura desnecessária e improvisada de trechos de
Shakespeare (no caso da atriz e cantora Marigona Qerkezi, intérprete da Lady Macbeth), e o ato de fazer o próprio Macbeth (o
barítono Craig Colclough) percorrer a fachada do edifício, comer pipoca de um vendedor ambulante e tomar um milk-shake, num gesto de afronta caricatural ao público presente
no interior do Theatro Municipal.
A direção mostra ainda desarticulação no trabalho coral,
perceptível na cena em que Macduff
anuncia o horror dos assassinatos: os coristas surgem em cena como se passeassem distraidamente,
alheios à tragédia que deveriam testemunhar, convertendo o drama escocês em mera pantomima urbana.
Um resultado que evidencia a ausência de coerência dramatúrgica e a incompreensão do sentido trágico que sustenta a
partitura de Verdi.
Ademais, faltou jogo cênico ao coro e a
diversos solistas, mantidos em posturas
estáticas, impiedosamente alheios
à dramaticidade intrínseca das cenas, o que comprometeu o andamento
teatral do espetáculo. Esses acréscimos
afrontosos e desconexos resultaram em reações imediatas do público, que se manifestou com vaias, gritaria: (vergonha !, toquem a música de
Verdi, fora já Sustenidos !) , apupos e urros generalizados, reprovando veementemente o contexto experimental, desrespeitoso e de efeito barato
proposto pela direção cênica.
A cenografia
minimalista igualmente de autoria de Elisa Ohtake, mostrou-se um desafio à
própria equipe técnica, obrigada a administrar transformações cênicas praticamente inexistentes. Nada
há, contudo, nada criativo: o que predomina é um vazio cênico deliberado, composto por paredes metálicas, cortinas
negras ao fundo e nas laterais, ausência
de cenários estruturados e o uso de adereços paupérrimos entre eles, duas poltronas translúcidas de bolhas, de estética duvidosa, que apenas acentuam o
caráter improvisado da proposta.
Na cena derradeira do Ato IV,
coro e figurantes surgem portando buquês
de flores multicoloridas, desfilando pelo palco como se tentassem compensar o vazio visual com gestos simbólicos
sem coesão dramática um desfecho oco e descompensado, sustentado apenas por uma espécie
de armadura cênica destinada a
“segurar a onda” até o apagar das luzes.
Os figurinos
de Gustavo Silvestre e as intervenções
de Sônia Gomes amplamente
divulgadas nas redes do próprio teatro configuram, em síntese, uma proposta atemporal, mas submetida a vaidades pessoais. O
resultado se traduz em uma colagem de
autoafirmação estética, experimental
e desrespeitosa com a originalidade
histórica, o estilo musical
e a dramaturgia trágica do “Macbeth” verdiano, inspirado no texto de William Shakespeare e no libreto de Francesco Maria Piave.
Trata-se, portanto, de um descalabro
cênico que não dialoga em nenhum momento com a obra e rompe com sua essência trágica.
A iluminação
de Aline Santini cumpriu função regular,
embora marcada por penúrias visuais
em momentos cruciais, como nos finais dos
Atos I e II, no sexteto emoldurado pelo coro e especialmente no início do Ato IV, quando a execução do
coro “Oh patria oppressa” exigia
maior densidade atmosférica e precisão
lumínica.
Por sua vez, o Coro Lírico Municipal, sob a sábia preparação de Hernán Sánchez Ortega, manteve um nível vocal sólido e disciplinado, ainda
que prejudicado pelas inconsistências
rítmicas e espaciais impostas pela direção cênica.
O Coro Lírico Municipal revelou-se o verdadeiro catalisador do
espírito shakespeariano nesta produção. Soube ressaltar a grandeza da escrita coral de Verdi,
especialmente nos cenas das bruxas
e nos concertatos dos Atos I e II,
onde as vozes encorpadas, homogêneas e
sonoramente líricas conferiram densidade
expressiva à narrativa musical.
Mesmo diante das limitações impostas pela encenação, o conjunto manteve disciplina vocal, precisão harmônica e vigor
dramático, reafirmando-se como um dos pilares artísticos mais sólidos da atual estrutura lírica
paulistana.
Cumpre recordar que Macbeth estreou no Teatro
della Pergola, em Florença,
em 14 de março de 1847, e teve
sua segunda versão, a chamada “francesa” apresentada em 21 de abril de 1865,
no Théâtre Lyrique de Paris. É
precisamente essa versão parisiense, revisada pelo próprio Giuseppe Verdi, que foi adotada na
presente montagem, sob atemporalidade e contemporaneizada ainda que desfigurada por escolhas cênicas e cortes
injustificáveis, como a supressão integral da música do balé.
Com essa trevosa
e odiosa proposta cênica e a consequente enganosa leitura cultural,
a montagem acabou por iludir o público mais jovem, aquele que, talvez em
sua primeira experiência operística em sua primeira ida à ópera, se viu infelizmente diante de um espetáculo
desconexo da verdade artística de Verdi e Shakespeare.
No
papel-título, o barítono dramático Craig Colclough evidenciou certo desgaste
físico e vocal, provavelmente fruto de longos e consecutivos ensaios, o que por vezes
limitou seu rendimento. Trata-se, contudo, de um artista de excelência
comprovada, dotado de sólida escola vocal e de um currículo
internacional dos mais promissores. Recentemente, interpretou Macbeth no
Metropolitan Opera de Nova Iorque, com grande êxito, confirmando o acerto
desse personagem em seu repertório.
Sua
trajetória inclui papéis de notável diversidade expressiva: Don Pasquale,
de Donizetti, e Fra Melitone, de La forza del destino, onde
demonstrou rara vis cômica; no repertório germânico, destacou-se como Kurwenal,
em Tristan und Isolde, e Alberich, em Das Rheingold,
papéis em que revelou uma voz encorpada, de timbre escuro e projeção
homogênea, sustentada por singular capacidade de expressão psicológica.
No universo pucciniano, é lembrado como um Barone Scarpia de intensa
dramaticidade em Tosca e um Jack Rance de impacto em La
fanciulla del West.
Nesta
produção paulistana, Colclough entregou um Macbeth de solidez técnica,
especialmente em momentos de alta exigência, como nas intervenções “Perfidi!
All’Anglo…”, “Esser puoi sanguinario, feroce”, “Nessun nato”
e ária “Pietà, rispetto, amore” (Ato IV), nas quais reafirmou verdadeira
musicalidade, articulação precisa e autoridade interpretativa.
A seu
lado, o soprano kosovar-croata Marigona Qerkezi compôs uma Lady
Macbeth de altíssimo nível técnico-artístico. Detentora de uma voz
dramática de agilidade notável, a intérprete possui um repertório de peso
que abrange desde Anna Bolena, de Donizetti, e Norma, de Bellini,
até Il Viaggio a Reims, Semiramide, Moïse in Egitto e Guillaume Tell, de
Rossini; passando por Manon Lescaut, Tosca, a Liú e Il tabarro,
de Puccini, e papéis verdianos como Aida, Ernani, Il trovatore
e a Missa de Requiem, também Der Rosenkavalier, de Strauss.
Sua Lady Macbeth
figura que exige um soprano dramático ou mezzo de tessitura ampla e timbre
escuro, quase áspero, capaz de sustentar o arco psicológico da “loba
medieval” que transita da ambição à loucura, ( do gênero Shirley Verrett,
Birgit Nilsson, Leonie Rysanek, Elena Souliotis ou Fiorenza Cossotto) foi
construída com precisão e grandeza.
Desde o recitativo “Nel dì della vittoria…”, que antecede a ária “Vieni!
t’affretta!”, Marigona Qerkezi demonstrou linha de canto firme, médios e
agudos bem projetados, timbre aveludado e escuro, e portamentos
impecáveis, ainda que as notas mais graves lhes sejam opacas e descoloridas.
Emissão perfeita de um ré bemol heroico ao final do concertato no Ato I !
No Ato II, sua interpretação de “La luce langue” atingiu elevado
grau técnico e emocional, culminando em “Una macchia è qui tuttora…”,
em que a artista modulou a voz com maestria partindo de um meio-tom quase
espectral até alcançar o Ré bemol superagudo em um filamento
vocal de tirar o fôlego.
Não há trecho que não revele controle, sensibilidade e fidelidade estilística.
Um triunfo inequívoco. Brava, Marigona Qerkezi.
Já o
baixo Savio Sperandio (Banquo) apresentou-se de modo apenas
convencional. Na célebre ária “Come dal ciel precipita”, as notas
graves quase inaudíveis comprometeram amplamente a sua performance.
Outros intérpretes já ocuparam o mesmo papel neste teatro com resultados bem superiores;
recordem-se Mario Rinaudo e Luiz-Ottavio Faria , bem como
referências internacionais como Bonaldo Giaiotti, Nicolai Ghiuselev,
Ricardo Yost, Nino Meneghetti, Giovanni Foiani, Ezio
Flagello, Carlo Colombara, Ildar Abdrazakov (Metropolitan
Opera, 2019), Erwin Schrott (Gran Teatre del Liceu, 2022/23)
e Andreas Bauer Kanabas (Oper Frankfurt, 2024/25).
O tenor Giovanni
Tristacci (Macduff) não convenceu: sua interpretação linear e sem
nuances dramáticas diluiu a nobreza do personagem. Em contrapartida, Mar
Oliveira (Malcolm) e o barítono Júlian Lisnishuk, que assumiu quatro papéis menores, mostraram consistência vocal e presença
cênica dignas de nota.
Causa
estranheza a decisão da direção em importar uma intérprete estrangeira para
o papel da Lady, quando há no próprio Coro Lírico Municipal diversos
sopranos líricos e mezzo-sopranos aptas a desempenhar o papel com mérito,
viu-se inexplicavelmente Isabella Lucchi, cuja breve participação
revelou voz frágil e projeção insuficiente.
Os demais Alessandro Gismano,
Graziela Sanchez e Rogério Nunes ofereceram desempenhos muito sofríveis,
exceção feita a Cauê Souza Santos, em sua terceira aparição, que
exibiu afinação impecável e belo fraseado... surgindo um novo cantor de
ópera !
Comentários
O que se seguiu ultrapassou todos os limites do aceitável: uma montagem que se vangloria de ser “atemporal” porém que, de fato, pareceu esquecer por completo o espírito trágico e visceral da partitura de Giuseppe Verdi. A ausência de cenário paredões metálicos, cortinas negras, essas duas poltronas translúcidas sem sentido já por si constitui um ultraje aos espectadores que ali se mantinham com expectativas legítimas.
criticacomoseta.blogspot.com
E então, num gesto que resumia o desrespeito completo ao público, o protagonista (o barítono Craig Colclough como Macbeth) abandonou o palco para… comer pipoca de vendedor ambulante da fachada do teatro, como se isso fosse encenação, como se isso fosse arte! Um absurdo que transforma a plateia em cúmplice de uma farsa, e reduz o público à condição de “imbecis” expressão que ficou explícita, e por isso legítima, no protesto coletivo.
Não se trata aqui de mera preferência por “tradição versus modernidade”. Trata-se de respeito, respeito à obra, ao compositor, ao público. Quando se impõe um espetáculo como se fosse performance de rua num corre-corrente de provocação, e ainda se espera aplausos, ou silêncio conivente, o resultado só pode ser o que vimos: vaias e gritos.
Se essa produção tinha algo para oferecer além da anedota, ele ficou enterrado sob a vaidade pessoal da direção cujo único cenário visível era a ostentação do que não havia e sob o compromisso de tratar a plateia como espectadora de um choque, e não como público de uma experiência artística relevante. É uma afronta ao público que se deslocou com expectativa, aos cantores que ali lutavam por dignidade, e ao próprio teatro que abriga tradições centenárias.
Portanto: sim, “VERGONHA” ecoou corretamente. E sim, o erro maior não está apenas na falta de cenário, ou na impropriedade da encenação está na opção consciente de escarnecer da arte e da plateia.
Que se registre, então, como um aprendizado ou como advertência de que modernização não significa barbárie. E que a próxima vez o público espere algo com sentido, criatividade e respeito, e não essa pantomima que aqui assistimos.
Faz falta uma direção por gente com cancha em ópera, mas isso é chover no molhado. Talvez trouxa seja eu, que sigo ano após ano esperançoso, renovando um programa anual cada vez mas salgado, especialmente pelo que entrega.
4 de novembro de 2025 às 08:17
As projeções, que poderiam enriquecer a narrativa, acabaram longas e forçadas, e o que deveria ser tragédia virou paródia. Ver produtos de limpeza usados como símbolo de sangue foi constrangedor, e a famosa floresta de Birnam se transformou em um caos de flores e confusão. O duelo final, fora de cena, só confirmou o esvaziamento geral. No fim, o público saiu antes do encerramento, em silêncio e frustração. Faltou direção, sobrou pretensão.
Suas críticas têm embasamento irrefutável e referências históricas que conferem a ela uma consistência substancial.
Políticas públicas precisam ser alvo de análises sérias e tão imparciais quanto possível.
Marco Antonio cumpre esse papel, criticando o espetáculo de A a Z, apresentando sólidos argumentos técnicos e históricos e apontando o que está em desacordo, bem como os méritos existentes.
Seu trabalho expõe os equívocos de uma gestão cultural com todos os sintomas de amadorismo, exercendo o papel que se espera de um profundo conhecedor do assunto e inconformado com o tratamento dado aos eventos culturais de nosso querido Teatro Municipal.
Que ele continue a exercer seu papel vigilante, expondo as mazelas que precisam ser expostas.
Descobri depois que a diretora estava estreando no gênero e logo com Macbeth! É como colocar alguém que acabou de tirar a carteira para pilotar um avião. Uma pena, porque o trabalho musical foi de primeira. Recomendo apenas para quem quer ouvir boa música, não para quem espera uma encenação à altura.
A sra. Andréia Caruso Saturnino, intendente -ou diretora artística- que escolhe quem dirige e é alinhado ao seu experimentalismo tosco oriundo de um teatro alternativo de baixa qualidade.
Essa senhora odeia ópera e quem gosta dela.
Simples assim !!!