A Missa de Réquiem exalta o soprano Guanqun Yu e o baixo Peixin Chen em vigorosas atuações com a OSESP.
Escrito por Marco Antônio Seta
Alessandro Manzoni e o Réquiem de Verdi
Exatamente a 22 de maio de 1873, falecia uma das maiores glórias da Itália: Alessandro Manzoni, poeta e autor do célebre romance I Promessi Sposi (Os Noivos).
A Itália havia se unificado havia poucos anos, de modo que exaltar Rossini por ocasião de sua morte equivalia também a afirmar e celebrar a própria identidade nacional. Quando, no subúrbio parisiense de Passy, faleceu Gioachino Rossini, em 1868, Verdi intentou comemorar o primeiro aniversário de sua morte com uma Missa de Réquiem, que seria composta coletivamente por doze compositores italianos de seu tempo, inclusive o próprio Verdi, para ser cantada em 13 de novembro de 1869, na Igreja de San Petronio, em Bolonha.
O plano, entretanto, não vingou, devido às mesquinharias da vida e do ambiente musical.
Impossibilitado de comparecer ao sepultamento de Manzoni, Verdi visitou o túmulo do poeta em 3 de junho de 1873. Diante daquela sepultura campal, solitária e anônima, jurou então erguer à memória do mestre idolatrado uma monumental obra coral-sinfônica.
Oficiou ao prefeito de Milão, oferecendo uma Missa de Réquiem para o primeiro aniversário da morte de Manzoni. E foi assim que o “Libera me” do Réquiem a Rossini, concebido por Verdi em 1869 como homenagem ao grande compositor, acabou por converter-se no capítulo conclusivo do Réquiem a Manzoni.
A estreia deu-se em 22 de maio de 1874, na Igreja de San Marco, em Milão, regida pelo próprio Verdi, seguindo-se apresentações no Teatro alla Scala de Milão, sempre sob imenso êxito.
Giuseppe Verdi (1813-1901)
Assim, a OSESP apresentou, entre os dias 20, 21 e 22 de agosto, na Sala São Paulo, com lotação esgotada nas três récitas, a obra principiando solene e suavemente por uma frase sussurrada dos violoncelos em surdina. O Introito exprime admiravelmente a solenidade da ocasião. A frase melódica ascendente, de contorno virtuosístico, percorre os solistas, aos quais se junta o coro nas sucessivas invocações: Requiem aeternam – Kyrie Eleison (Andante).
A majestosa parte coral da Missa foi plenamente executada pelos coros Lírico do Theatro Municipal de São Paulo e da OSESP, notavelmente nas passagens do "Dies irae" (Allegro Agitato). A partitura de Verdi traz-nos à mente o Juízo Final de Michelangelo, atrás do altar da Capela Sistina do Vaticano. Trompetes, trombones, contra-bass-tuba, tímpanos e bombo acrescentam-se ao pentagrama verdiano.
Coro Lírico do Theatro Municipal de São Paulo
Após quádruplos violentos acordes, explode a plena orquestra numa fúria apocalíptica, por entre os desesperados gritos do coro, configurando o universo da dissolução... Ressoam trombetas ecoadas por outras à distância. Gradualmente, são reforçadas pelo maciço capítulo dos metais pesados, num tremendo crescendo do "Tuba mirum". Os mortos erguem-se das tumbas, a fim de responder perante o Supremo Juiz.
Um suplicante trio vocal ao soprano, mezzo-soprano e tenor permeia o contraste permanente entre luz e sombra, dramatismo e lirismo, acompanhado por um constante e elegante solo de fagote que acompanha o contido e suplicante trio, prosseguido pela intervenção da voz do baixo no opressivo Rex tremendae majestatis... Segue-se o dueto Recordare, ao soprano e mezzo-soprano.
A secção seguinte imprime o célebre solo de tenor, o "Ingemisco", página lírica de relevo ímpar. Na última parte, um solo de oboé repete a linda melodia da oração.
Aqui ouviu-se a voz do tenor norte-americano Joshua Blue, tenor lírico de timbre metálico e sonoro, que poderá melhorar nos legatos e filatos, ainda não devidamente trabalhados.
A inesperada reexposição do "Dies irae" contraria o texto canônico, algo que Verdi faz ao longo de toda a obra, ao recuperar palavras de forma a enfatizar musicalmente determinado ambiente.
O "Lacrymosa" (Largo), na sombria tonalidade de si bemol menor: o mezzo-soprano começa o lamento, seguido pelos demais solistas e pelo coro. A voz de Luisa Francesconi, clara demais para essa obra, ( Liber Scriptus) não preencheu a vocalidade de um mezzo-soprano "verdiano" a que o compositor se dedicara.
O "Sanctus" (Allegro), mais uma vez, fez brilhar a interpretação dos coros, com os gritos jubilosos ritmados para duplo coro misto. No "Benedictus", as palavras "Pleni aunti coeli" são repetidas suavemente sobre uma bela frase acordal descendente, derivada do sujeito da fuga.
O "Agnus Dei" (Andante), com soprano e mezzo-soprano, com afastamento de uma oitava, canta a cappella a súplica inicial, repetida pelo coro e pela orquestra; conjugada pelo "Communio – Lux aeterna" (molto moderato), cabe ao baixo solista, o chinês Peixin Chen, cuja voz é conduzida em excelente escola, aclamar os versículos do Requiem aeternam. Cantou com expressividade e consistência o Confutatis maledictis.
O "Libera me" (moderato), A Absolvição, atinge o cerne da estupenda obra-prima. É aqui que se avalia o soprano solista. Após uma recapitulação da parte orquestral do Introito, variadamente entoado pelo soprano e pelo coro a cappella, entra uma fuga esplendorosa, que atinge resplandecente clímax, concluindo numa coda pianissimo, onde o soprano sul-coreano Guanqun Yu saiu-se esplêndida em todas as suas passagens e intervenções, fruto que é de ótima escola de canto e possuidora de um registro lírico amplo e muito bem explorado.
No acorde de dó maior, dois suaves rolamentos de tímpanos, dois acordes. E o resto é silêncio...
Na regência, sobreveio o maestro norte-americano Andrew Litton, que soube dominar o equilíbrio sonoro, não encobrindo os solistas e colaborando para que o concerto transcorresse numa das melhores performances da referida Missa de Requiem pela OSESP, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, numa conclusão de verdadeira intensidade dramática e de profundo impacto emocional.
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