Analisando o repertório escolhido para 2026 no Theatro Municipal de São Paulo. Escrito por Marco Antônio Seta
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A Temporada 2026 da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo: Um repertório sem norte
I. Estrutura artística e falta de propósito programático
A temporada é apresentada como uma sequência de eventos pontuais, em que cada concerto parece viver por si só, sem ser tecido a partir de um fio condutor que justifique escolhas de repertório, confrontos estéticos ou articulações histórico-críticas. Uma temporada orquestral não é meramente um catálogo de datas com repertórios desconexos; trata-se de uma construção discursiva, capaz de propiciar ao público uma experiência cumulativa de sentido — algo que aqui está ausente.
Do ponto de vista institucional, não se vislumbra uma narrativa que sustente o projeto artístico ao longo do ano. Ao contrário: a impressão é a de que programadores, diretores e maestros agiram como curadores isolados, sem diálogo entre si, como se a OSM fosse um espaço de apresentações soltas, não uma orquestra residente com identidade coerente.
II. A crítica musicológica dos programas individualmente
1. Concerto de Abertura: repertório nacional sem eixo interpretativo
O concerto de abertura propõe obras brasileiras, incluindo peças de compositores como Cibelle Donza, Hekel Tavares, Francisco Mignone e Heitor Villa-Lobos. Embora louvável a inclusão da música nacional, a seleção carece de um eixo interpretativo que vá além do mero nacionalismo estilístico. Obras tão díspares em linguagem — de Mignone a Villa-Lobos — passando entre Hekel Tavares e Cibelle Donza exigem um foco interpretativo claro, que destaque suas convergências e conflitos estéticos; isso não é fornecido pela programação, que mais parece uma antologia de expoentes do cânone brasileiro do que um statement artístico. Vale ressaltar que em épocas passadas, ouviu-se este Choro nº 10 ( Villa-Lobos), sob a regência de nomes consagrados: maestros Edoardo de Guarnieri, Eleazar de Carvalho, João de Souza Lima (1898-1982), Isaac Karabtchevsky, John Neschling, Roberto Tibiriça e David Machado.
2. Série Mahler e o dilema do cânone universal
A presença da série Mahler sob a regência de Minczuk poderia ser um dos pilares da temporada, se tratada com profundidade hermenêutica. Mahler demanda uma orquestra que não apenas domine as complexidades rítmicas e tímbricas, mas que compreenda as implicações filosóficas de sua música — a dialética entre niilismo e transcendência, a tessitura sinfônica como símbolo de totalidade. No entanto, os programas associados se limitam a combinações conservadoras de repertório, sem explorar, por exemplo, confrontos contrapontos com repertório brasileiro ou obras contemporâneas que ampliem a tessitura semântica de Mahler. Deixadas de lado as de nºs 4, 5, 6, 7 e 9, ainda não apresentadas, no entanto, a inclusão da sinfonia de nº 8 (Sinfonia dos Mil); revela mais um gesto de gigantismo enganador do que de responsabilidade cultural.
3. Repertório contemporâneo: presença simbólica, ausência de compromisso
A inclusão de música contemporânea é outro ponto crítico. Embora haja obras de compositores vivos, a programação favorece estreias que soam como gestos solenes, não como compromissos estéticos firmes com a criação atual. Música contemporânea de fato relevante não se reduz a nomes ou datas: requer contexto, inserção em discursos históricos e diálogo com o repertório clássico e romântico. A ausência dessa articulação revela um equívoco programático básico.
A ópera ‘O Amor das Três Laranjas’: remontagem (Rafael Salvador/Divulgação)
A ópera ‘O Amor das Três Laranjas’: remontagem (Rafael Salvador/Divulgação)
4. Títulos líricos anunciados : A temporada 2026 do Complexo Theatro Municipal de São Paulo, intitulada "Lastros e Rastros", traz uma programação reflexiva e diversa, com destaque; entre elas: "O Amor das três Laranjas", de Sergei Prokofiev entre fevereiro e março; Intolleranza, de Luigi Nono; e clássicos como Tristão e Isolda, (Wagner) com direção de Daniela Thomas, entre julho e agosto; Don Carlo, de Verdi, dirigida por Caetano Vilela, em setembro; e Andrea Chenier, de Umberto Giordano, em novembro/dezembro 2026, com direção de Caio Araújo, carnavalesco da Mocidade Alegre, em São Paulo.
A sala de espetáculos esvaziada nos concertos sinfônicos, dissipando o público
III. Implicações culturais e educacionais
A função social de uma orquestra pública inclui educação, formação do público e diálogo com comunidades amplas. Contudo, a temporada de 2026 falha em construir pontes entre repertório e audiência, recorrendo a escolhas que, por um lado, apelam a um público especializado e, por outro, ignoram potenciais trajetórias de aprendizagem para ouvintes menos habituados ao repertório sinfônico.
Não há marcos programáticos que convidem à participação ativa do público, como leituras pré-concertos integradas, palestras educativas e ilustradas ao público, ciclos temáticos que girem em torno de questões culturais ou históricas — iniciativas que outras instituições musicais têm adotado com grande êxito. Ali tudo é improvisado ao pé de um microfone nem sempre afinado para o público presente.
IV. Conclusão: dispersão em vez de discurso
A Temporada 2026 da OSM, como aqui programada, é o retrato de uma orquestra que perdeu a oportunidade de afirmar uma identidade cultural forte. Ao invés de construir um projeto artístico com foco, articulado e com compromisso hermenêutico, o que se vê é uma coleção de eventos isolados, como se a própria instituição hesitasse em assumir um discurso.
Esta crítica não é apenas uma defesa de repertórios “difíceis”; é, antes, um chamado para que a OSM recupere uma visão programática que dialogue com o público, com a história da música e com as exigências estéticas de nosso tempo — uma visão que vá além da soma de concertos e que responda à pergunta fundamental: por que esta temporada, e para quem ela existe?
Marco Antônio Seta é jornalista inscrito sob nº 61.909 MTB e estudou no Conservatório Dramático e Musical "Dr. Carlos de Campos", em Tatuí / SP; Instituto de Educação "Peixoto Gomide", em Itapetininga, SP. Licenciado em Artes Visuais, pela UNICASTELO, São Paulo.
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