A Temporada Lírica Oficial do Municipal de Santiago confirma cinco grandes títulos, todos de inequívoco interesse do público chileno e alinhados com uma tradição operística sólida, sem arroubos oportunistas nem discursos vazios de “falta de recursos”. Ali, o que se anuncia é repertório consistente, direções artísticas claras e elencos pensados a partir de critérios artísticos não administrativos ou punitivos.
Entre os títulos está La bohème, de Giacomo Puccini, com direção cênica de Cristina Gallardo-Domâs, que estreia na régie, e Yaritza Véliz retomando o papel de Mimì. Michael McDermott (Rodolfo) e Camila Romero (Musetta) completam os papéis principais.Uma escolha que alia renovação e continuidade, algo aparentemente incompreensível para gestores culturais brasileiros.
A temporada inclui ainda a desafiadora Andrea Chénier, de Umberto Giordano, ópera de alto risco vocal e dramático, com direção musical de Sergio Alapont, em sua estreia no teatro, e a experimentada direção cênica de Pier Francesco Maestrini, prova inequívoca de que o Municipal de Santiago não teme obras exigentes nem subestima seu público.
Outro título anunciado é Romeu e Julieta, de Charles Gounod, com Yaritza Véliz e Isabela Díaz alternando-se no papel feminino principal, sob direção musical de Evelino Pidò e com a estreia de Alonso Torres como diretor cênico. Aqui, a alternância não é subterfúgio administrativo, mas estratégia artística clara, pensada para valorizar intérpretes nacionais em diálogo com nomes internacionais de peso.
Soma-se a isso o retorno de Carmen, de Georges Bizet, marcando o aguardado reencontro do teatro com o diretor espanhol José Miguel Pérez-Sierra, além de Elektra, de Richard Strauss, com Catherine Foster no papel título, Wendy Bryn Harmer, Artyon Wasnetsov, Judith Kutasi e Matheus Pompeu, sob a regência de Paolo Bortolameolli, apresentada em um conceito cênico imersivo, com direção de Esteban Muñoz, chileno radicado na Alemanha. Trata-se de repertório denso, moderno, desafiador — exatamente o oposto do populismo cultural disfarçado de austeridade e competência.
Diante desse panorama, torna-se impossível não expor o contraste brutal com a realidade mineira. Em Belo Horizonte, a mesma direção que alega falta de recursos, demite Lígia Amadio justamente a maestra que elevou o nível artístico da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais desde 2023 e que se preparava para conduzir o conjunto ao auge simbólico de seus 50 anos, em 2026. Ao mesmo tempo, anuncia uma temporada inflada e distanciadora de público com As Bodas de Fígaro (Mozart), Viva a Ópera, Chica da Silva e O Maestro de Capela, como se quantidade substituísse projeto, e como se trocar lideranças fosse sinônimo de valorização dos músicos.
A pergunta, portanto, não é retórica, é acusatória:
A maestra Ligia Amadio regendo em Belo Horizonte (Palácio das Artes de BH)
A ampliação de temporadas e a rotatividade de regentes brasileiros “que já passaram por aquele palco” são realmente a solução para salários indignos e condições precárias de trabalho? Ou trata-se apenas de uma cortina de fumaça para afastar a Maestra Ligia Amadio que ousou defender publicamente seus músicos, em audiência na Assembleia Legislativa, diante do próprio Sindicato que agora denuncia o absurdo? A afirmação é, no mínimo, questionável.
O Chile demonstra que política cultural se faz com continuidade, coragem estética e respeito institucional. Minas Gerais, ao contrário, parece optar pela celebração vazia, pela retaliação silenciosa e pela destruição de um projeto artístico em pleno amadurecimento.
Não há cinquentenário que resista a tamanha miopia administrativa. Não há temporada que disfarce a violência simbólica de demitir quem ousa defender a arte e seus trabalhadores.
Obs: Escrito em 15 de Janeiro de 2026.
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