Ligia Amadio fora da Fundação Clóvis Salgado em Belo Horizonte e as perdas na programação da casa em relação à Ópera Nacional do Chile.

“A demissão de Lígia Amadio e a desconexão entre políticas culturais e excelência artística”. Escrito por Marco Antônio Seta

Enquanto a Fundação Clóvis Salgado demite, de forma abrupta e politicamente suspeita, uma maestra de reconhecimento internacional como Lígia Amadio, o Teatro Municipal de Santiago do Chile, à oeste do Brasil, apresenta ao público e à comunidade artística um exemplo concreto de planejamento, coerência estética e respeito à inteligência do espectador.



                 Orquestra Sinfônica e Coral Lírico de Minas Gerais 



A Temporada Lírica Oficial do Municipal de Santiago confirma cinco grandes títulos, todos de inequívoco interesse do público chileno e alinhados com uma tradição operística sólida, sem arroubos oportunistas nem discursos vazios de “falta de recursos”. Ali, o que se anuncia é repertório consistente, direções artísticas claras e elencos pensados a partir de critérios artísticos não administrativos ou punitivos.

Entre os títulos está La bohème, de Giacomo Puccini, com direção cênica de Cristina Gallardo-Domâs, que estreia na régie, e Yaritza Véliz retomando o papel de Mimì. Michael McDermott (Rodolfo) e Camila Romero (Musetta) completam os papéis principais.Uma escolha que alia renovação e continuidade, algo aparentemente incompreensível para gestores culturais brasileiros.

A temporada inclui ainda a desafiadora Andrea Chénier, de Umberto Giordano, ópera de alto risco vocal e dramático, com direção musical de Sergio Alapont, em sua estreia no teatro, e a experimentada direção cênica de Pier Francesco Maestrini,   prova inequívoca de que o Municipal de Santiago não teme obras exigentes nem subestima seu público.

Outro título anunciado é Romeu e Julieta, de Charles Gounod, com Yaritza Véliz e Isabela Díaz alternando-se no papel feminino principal, sob direção musical de Evelino Pidò e com a estreia de Alonso Torres como diretor cênico. Aqui, a alternância não é subterfúgio administrativo, mas estratégia artística clara, pensada para valorizar intérpretes nacionais em diálogo com nomes internacionais de peso.

Soma-se a isso o retorno de Carmen, de Georges Bizet, marcando o aguardado reencontro do teatro com o diretor espanhol José Miguel Pérez-Sierra, além de Elektra, de Richard Strauss, com Catherine Foster no papel título, Wendy Bryn  Harmer, Artyon Wasnetsov, Judith Kutasi e Matheus Pompeu, sob a regência de Paolo Bortolameolli,  apresentada em um conceito cênico imersivo, com direção de Esteban Muñoz, chileno radicado na Alemanha. Trata-se de repertório denso, moderno, desafiador — exatamente o oposto do populismo cultural disfarçado de austeridade e competência. 

Diante desse panorama, torna-se impossível não expor o contraste brutal com a realidade mineira. Em Belo Horizonte, a mesma direção que alega falta de recursos,  demite Lígia Amadio justamente a maestra que elevou o nível artístico da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais desde 2023 e que se preparava para conduzir o conjunto ao auge simbólico de seus 50 anos, em 2026. Ao mesmo tempo, anuncia uma temporada inflada e distanciadora de público com As Bodas de Fígaro (Mozart), Viva a Ópera, Chica da Silva e O Maestro de Capela, como se quantidade substituísse projeto, e como se trocar lideranças fosse sinônimo de valorização dos músicos.

A pergunta, portanto, não é retórica, é acusatória:


A maestra Ligia Amadio regendo em Belo Horizonte (Palácio das Artes de BH)

A ampliação de temporadas e a rotatividade de regentes brasileiros “que já passaram por aquele palco” são realmente a solução para salários indignos e condições precárias de trabalho? Ou trata-se apenas de uma cortina de fumaça para afastar a Maestra Ligia Amadio que ousou defender publicamente seus músicos, em audiência na Assembleia Legislativa, diante do próprio Sindicato que agora denuncia o absurdo? A afirmação é, no mínimo,  questionável. 

O Chile demonstra que política cultural se faz com continuidade, coragem estética e respeito institucional. Minas Gerais, ao contrário, parece optar pela celebração vazia, pela retaliação silenciosa e pela destruição de um projeto artístico em pleno amadurecimento.

Não há cinquentenário que resista a tamanha miopia administrativa. Não há temporada que disfarce a violência simbólica de demitir quem ousa defender a arte e seus trabalhadores.

Obs: Escrito em 15 de Janeiro de 2026. 



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